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Sombras à Espreita
20/07/2003

Paranóia e Sobrenatural em Roman Polanski
Marcello Simão Branco

Na noite de domingo, dia 27 de julho, fui surpreendido com a exibição do filme Macbeth (Idem), na TV Bandeirantes, de São Paulo. Uma adaptação de William Shakespeare no cinema costuma ser rebuscada, empolada, pretensiosa. A forma acaba pesando demais sobre o conteúdo da história. Mas conforme ia assistindo a esta adaptação inglesa de 1971, fui me dando conta da fluidez narrativa, do ritmo ágil e a direção segura dos atores. Aí caiu a ficha: quem estava dirigindo o longa era simplesmente Roman Polanski.

O diretor polonês de carreira internacional tem uma relação muito próxima com o cinema de suspense e horror e mostra toda a sua competência com o gênero nesta tragédia shakesperiana. Dois generais escoceses ao voltarem de uma batalha vitoriosa contra os noruegueses, encontram no caminho três seres grotescos semelhantes a mulheres. Seminuas, com cabelos desgrenhados e olhos saltados, profetizam o futuro para os dois guerreiros. Macbeth, se tornaria barão e depois rei. Banquo, por sua vez, não chegaria à realeza, mas seus filhos iniciariam um longa linhagem de reis da Escócia.

Eles ficam muito impressionados com o vaticínio das três bruxas que assim como apareceram, sumiram sem deixar rastros. Macbeth, é logo saudado como barão em sua chegada à Escócia. E isso o incita a logo fazer cumprir a totalidade da profecia. Ao lado de sua ambiciosa esposa, assassina o rei, de tal forma que a suspeita recai nos seus dois filhos pretendentes, que fogem. E assim, inicia-se o reinado tirânico de Macbeth. Pois, ainda com sangue nas mãos, arquiteta a morte de Banquo e seu filho, para quebrar a segunda parte do prognóstico das bruxas, e reinar absoluto. Banquo, de fato, é morto em uma emboscada, mas seu filho foge. Inicia-se a tragédia fatalista da qual Macbeth tenta desesperadamente escapar.

Esta é, em linhas gerais, o enredo de uma das mais fortes peças de Shakespeare. Ela já havia sido filmada por Orson Welles, em 1948, com aquelas características teatrais que destaquei. Mas com Polanski, temos cinema, com um roteiro erudito, sim, mas não excessivo, uma direção ágil e segura, com muita violência e sangue expostos, ótimas interpretações – todos os atores são britânicos, para dar ênfase ao sotaque e ao texto original –, permeados por imagens escuras e lúgubres, entre o vermelho, o cinzento e o azul. Um dos grandes filmes de sua carreira, embora pouco lembrado por seus fãs.

É possível que a produção deste filme esteja vinculada com a morte de sua mulher, a atriz Sharon Tate, no fim dos anos 60. Um seita de drogados liderados pelo fanático Charles Mason, com supostas motivações demoníacas a assassinou barbaramente – e grávida de oito meses. Transparece que o tom visceral e pessimista de Macbeth possa, de alguma forma, estar vinculado com esta tragédia pessoal.

Mas esta não foi a única na vida de Polanski – sua mãe morreu um um campo de concentração nazista –, e isso talvez explique a recorrência com que ele sempre volte aos temas e paisagens do mórbido e do fantástico. E antes da leitura sobrenatural e violenta que imprime a Macbeth, já havia filmado três filmes entre o suspense e o horror.

O primeiro é Repulsa ao Sexo (Repulsion), de 1965. No seu primeiro filme em inglês, ele dirige a belíssima Catherine Deneuve – no auge, a mulher mais bonita da história do cinema –, que interpreta uma manicure. Ela tem sérios problemas sexuais e psicológicos, não conseguindo se relacionar com homem algum. Chega a trancar-se em seu apartamento, vai enlouquecendo mentalmente e agride a todos que buscam contato com ela. O filme não mede limites no estudo das opções negativas que um ser humano pode assumir, em uma situação de crise. A fotografia em preto e branco só aumenta a sensação de realismo da história. Um suspense forte, poderíamos dizer, horror psicológico, ao qual se segue uma ferina comédia.

Sim, mas um filme de humor negro, ácido, sarcástico chamado A Dança dos Vampiros (Dance of the Vampires, entre outros títulos), de 1967. O contraste começa na cor, com uma vívida fotografia e bela trilha sonora. É uma criativa variação ao tema do vampirismo, então muito em voga no cinema anglo-americano. Um caçador de vampiros e seu assistente saem à procura de vampiros num vilarejo obscuro. Destaca-se no filme a atuação do próprio Polanski e de sua esposa, a linda Sharon Tate. Este filme, assim como Macbeth, é raríssimo não tendo sido lançado no mercado de vídeo até hoje - espero que sejam lançados agora, com o DVD.

No ano seguinte, Polanski está em cartaz de novo com O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby), seu primeiro filme nos Estados Unidos. Um jovem casal (interpretados por Mia Farrow e John Cassavetes) muda-se para um apartamento e passam a ser muito assediados por um estranho casal de velhos, especialmente depois que a jovem está grávida. Tantos mimos deixam Rosemary perturbada e desconfiada, embora não saiba dizer exatamente porque. Uma das razões, contudo, é que o seu marido – um jovem ator –, parece como que hipnotizado em estar na presença dos velhinhos. E,surpreendentemente, sua carreira decola, depois de conhecê-los. Conforme a história vai se desenvolvendo, realismo e alucinação se misturam, o suspense cresce, levando de roldão o telespectador, também angustiado e curioso com   a    misteriosa 

trama. Até o desfecho que não é menos do que chocante, especialmente a cena final, que mostra as verdadeiras intenções dos velhos sinistros, e o que o personagem de Cassavetes foi capaz de fazer para ‘subir’ na vida.

Um dos maiores clássicos do horror já realizados, precursor de vários outros filmes sobre o demonismo, um assunto muito presente na sociedade ocidental entre o fim dos anos 60 e começo dos anos 70. Polanski, como de hábito, escreveu o roteiro, baseado em história de Ira Levin (lembrado também pelo romance Os Meninos do BrasilThe Boys from Brazil, levado às telas em 1978). Vale notar ainda que Polanski mostra intimidade com a comunidade do gênero, ao convidar o diretor de filmes B de horror dos anos 50 William Castle, para fazer parte da produção e até uma ponta no filme – o homem branco que aparece na cabine telefônica.

Polanski voltaria ao suspense com matiz de horror psicológico em 1976, ao filmar o perturbador O Inquilino (The Tenant/Le Locateire), uma produção franco-americana. O clima de mórbida fantasia premonitória já vistos em O Bebê de Rosemary e em Macbeth volta com força na história de um imigrante polonês – interpretado magistralmente pelo próprio Polanski, também um ator talentoso –, que chega a Paris e aluga um quarto em um pequeno prédio no subúrbio. Logo de cara, fica intrigado com o relato da inquilina anterior que se suicidou. Aos poucos, ele vai percebendo que não é muito bem quisto entre seus vizinhos, que fazem tudo para incomodá-lo e pressioná-lo a ter um estilo de vida parecido com os deles próprios: antipáticos, conservadores e anti-sociais. O imigrante vai se sentindo sufocado, sem espaço para nada, e de forma psicótica começa a se identificar com a antiga inquilina. Uma parábola muito atual sobre preconceito e a rejeição que forasteiros recebem em um novo ambiente e o fato do próprio Polanski – nascido na França de pais poloneses –, fazer o protagonista diz muito sobre suas próprias experiências de pessoa sem uma única raiz, sempre por terras estranhas, o que só reforça a verossimilhança da história. A destacar também o seu roteiro, realmente primoroso, espetacular, ainda mais pela seqüência final, que é de ‘cair o queixo’. E tudo permeado pela morbidez das imagens, assinadas pelo mestre sueco Sven Nikvist, o mesmo que acompanhou a maior parte dos filmes do genial Ingmar Bergman.

De uma forma mais explícita o diretor volta ao horror em 1999, com o filme O Último Portal (The Ninth Gate). Aqui o demonismo volta à cena. Um perito em livros raros – Johnny Depp, ótimo no papel –, é contratado por um misterioso colecionador de livros sobre satã. Sua tarefa é comparar o exemplar de O Nono Portal com os únicos dois existentes que estão na mão de outros colecionadores na Europa. Apenas de posse do livro original, o colecionador – interpretado por outro ator habitual ao gênero, Frank Langella –, poderia invocar a presença física do diabo. O filme tem seu forte na inspiração visual e no clima sombrio, misterioso da trama. E conforme o personagem de Depp vai se envolvendo na pesquisa, alguns eventos inexplicáveis e mortais acontecem ao seu redor, numa mistura de medo e fascínio que ele não mais controla. A temática dos livros raros dos tempos medievais com poderes sobrenaturais é comum ao gênero, e neste filme em particular Polansky não está muito inspirado, com uma direção e roteiro um tanto irregular e com final previsível.

Neste ano, Polanski recebeu um Oscar como melhor diretor pelo filme O Pianista (The Pianist), que já havia levado a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2002. É, como se sabe, um filme sobre o holocausto nazista – o horror maior do século 20 –, podendo ser também identificado como mais um mergulho do diretor em seus próprios pesadelos pessoais. Mas o que quero acentuar aqui é que o fato de Polanski ser um diretor de primeira linha, com um cinema sofisticado, que se situa muito bem entre o comercial e o artístico, não impediram que ele fizesse alguns dos filmes de horror e suspense mais originais, influentes e marcantes de todo o gênero. Digo isso, porque paira entre alguns críticos e fãs, uma certa defesa de uma postura antiintelectual, que o horror como gênero, seria mais limitado, tosco, e que artistas com maior refino e sutileza não se dariam tão bem com o gênero, pois este prescinde de uma certa força explícita. Um equívoco, como nos mostra Polanski. Um artista talentoso e sofisticado sim, que mergulhou no suspense e no horror como uma forma de expiar seus próprios sofrimentos e demônios interiores. E que é, na minha modesta visão, além de sutil e estilista, um excelente contador de histórias. E o horror só teve a ganhar com isso.

 

 

Marcello Simão Branco é jornalista e cientista político. Edita o fanzine de ficção científica e horror Megalon desde 1988, além de ser sócio da Editora Ano-Luz e por ela, editar e organizar o livro de contos Outras Copas, Outros Mundos, em 1998. Comentários e sugestões de temas para esta coluna podem ser enviados para o seu e-mail: marcellobranco@ig.com.br.

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