|
Na
noite de domingo, dia 27 de julho, fui surpreendido com a
exibição do filme Macbeth (Idem), na TV Bandeirantes, de
São Paulo. Uma adaptação de William Shakespeare no cinema costuma ser
rebuscada, empolada, pretensiosa. A forma acaba pesando demais sobre o
conteúdo da história. Mas conforme ia assistindo a esta adaptação
inglesa de 1971, fui me dando conta da fluidez narrativa, do ritmo ágil
e a direção segura dos atores. Aí caiu a ficha: quem estava dirigindo
o longa era simplesmente Roman Polanski.
O
diretor polonês de carreira internacional tem uma relação muito
próxima com o cinema de suspense e horror e mostra toda a sua
competência com o gênero nesta tragédia shakesperiana. Dois generais
escoceses ao voltarem de uma batalha vitoriosa contra os noruegueses,
encontram no caminho três seres grotescos semelhantes a mulheres.
Seminuas, com cabelos desgrenhados e olhos saltados, profetizam o futuro
para os dois guerreiros. Macbeth, se tornaria barão e depois rei.
Banquo, por sua vez, não chegaria à realeza, mas seus filhos
iniciariam um longa linhagem de reis da Escócia.
Eles
ficam muito impressionados com o vaticínio das três bruxas que assim
como apareceram, sumiram sem deixar rastros. Macbeth, é logo saudado
como barão em sua chegada à Escócia. E isso o incita a logo fazer
cumprir a totalidade da profecia. Ao lado de sua ambiciosa esposa,
assassina o rei, de tal forma que a suspeita recai nos seus dois filhos
pretendentes, que fogem. E assim, inicia-se o reinado tirânico de
Macbeth. Pois, ainda com sangue nas mãos, arquiteta a morte de Banquo e
seu filho, para quebrar a segunda parte do prognóstico das bruxas, e
reinar absoluto. Banquo, de fato, é morto em uma emboscada, mas seu
filho foge. Inicia-se a tragédia fatalista da qual Macbeth tenta
desesperadamente escapar.
Esta
é, em linhas gerais, o enredo de uma das mais fortes peças de
Shakespeare. Ela já havia sido filmada por Orson Welles, em 1948, com
aquelas características teatrais que destaquei. Mas com Polanski, temos
cinema, com um roteiro erudito, sim, mas não excessivo, uma
direção ágil e segura, com muita violência e sangue expostos,
ótimas interpretações – todos os atores são britânicos, para dar
ênfase ao sotaque e ao texto original –, permeados por imagens
escuras e lúgubres, entre o vermelho, o cinzento e o azul. Um dos
grandes filmes de sua carreira, embora pouco lembrado por seus fãs.
É
possível que a produção deste filme esteja vinculada com a morte de
sua mulher, a atriz Sharon Tate, no fim dos anos 60. Um seita de
drogados liderados pelo fanático Charles Mason, com supostas
motivações demoníacas a assassinou barbaramente – e grávida de
oito meses. Transparece que o tom visceral e pessimista de Macbeth
possa, de alguma forma, estar vinculado com esta tragédia pessoal.
Mas
esta não foi a única na vida de Polanski – sua mãe morreu um um
campo de concentração nazista –, e isso talvez explique a
recorrência com que ele sempre volte aos temas e paisagens do mórbido
e do fantástico. E antes da leitura sobrenatural e violenta que imprime
a Macbeth, já havia filmado três filmes entre o suspense e o
horror.
O
primeiro é Repulsa ao Sexo (Repulsion), de 1965. No seu
primeiro filme em inglês, ele dirige a belíssima Catherine Deneuve –
no auge, a mulher mais bonita da história do cinema –, que interpreta
uma manicure. Ela tem sérios problemas sexuais e psicológicos, não
conseguindo se relacionar com homem algum. Chega a trancar-se em seu
apartamento, vai enlouquecendo mentalmente e agride a todos que buscam
contato com ela. O filme não mede limites no estudo das opções
negativas que um ser humano pode assumir, em uma situação de crise. A
fotografia em preto e branco só aumenta a sensação de realismo da
história. Um suspense forte, poderíamos dizer, horror psicológico, ao
qual se segue uma ferina comédia.
Sim,
mas um filme de humor negro, ácido, sarcástico chamado A Dança dos
Vampiros (Dance of the Vampires, entre outros títulos), de
1967. O contraste começa na cor, com uma vívida fotografia e bela
trilha sonora. É uma criativa variação ao tema do vampirismo, então
muito em voga no cinema anglo-americano. Um caçador de vampiros e seu
assistente saem à procura de vampiros num vilarejo obscuro. Destaca-se
no filme a atuação do próprio Polanski e de sua esposa, a linda
Sharon Tate. Este filme, assim como Macbeth, é raríssimo não
tendo sido lançado no mercado de vídeo até hoje - espero que sejam
lançados agora, com o DVD.
No
ano seguinte, Polanski está em cartaz de novo com O Bebê de
Rosemary (Rosemary’s Baby), seu primeiro filme nos Estados
Unidos. Um jovem casal (interpretados por Mia Farrow e John Cassavetes)
muda-se para um apartamento e passam a ser muito assediados por um
estranho casal de velhos, especialmente depois que a jovem está
grávida. Tantos mimos deixam Rosemary perturbada e desconfiada, embora
não saiba dizer exatamente porque. Uma das razões, contudo, é que o
seu marido – um jovem ator –, parece como que hipnotizado em estar
na presença dos velhinhos. E,surpreendentemente, sua carreira decola,
depois de conhecê-los. Conforme a história vai se desenvolvendo,
realismo e alucinação se misturam, o suspense cresce, levando de
roldão o telespectador, também angustiado e curioso com a
misteriosa
|
|
trama. Até o desfecho que não é menos do que chocante, especialmente
a cena final, que mostra as verdadeiras intenções dos velhos
sinistros, e o que o personagem de Cassavetes foi capaz de fazer para
‘subir’ na vida.
Um
dos maiores clássicos do horror já realizados, precursor de vários
outros filmes sobre o demonismo, um assunto muito presente na sociedade
ocidental entre o fim dos anos 60 e começo dos anos 70. Polanski, como
de hábito, escreveu o roteiro, baseado em história de Ira Levin
(lembrado também pelo romance Os Meninos do Brasil – The
Boys from Brazil, levado às telas em 1978). Vale notar ainda que
Polanski mostra intimidade com a comunidade do gênero, ao convidar o
diretor de filmes B de horror dos anos 50 William Castle, para fazer
parte da produção e até uma ponta no filme – o homem branco que
aparece na cabine telefônica.
Polanski
voltaria ao suspense com matiz de horror psicológico em 1976, ao filmar
o perturbador O Inquilino (The Tenant/Le Locateire),
uma produção franco-americana. O clima de mórbida fantasia
premonitória já vistos em O Bebê de Rosemary e em Macbeth volta
com força na história de um imigrante polonês – interpretado
magistralmente pelo próprio Polanski, também um ator talentoso –,
que chega a Paris e aluga um quarto em um pequeno prédio no subúrbio.
Logo de cara, fica intrigado com o relato da inquilina anterior que se
suicidou. Aos poucos, ele vai percebendo que não é muito bem quisto
entre seus vizinhos, que fazem tudo para incomodá-lo e pressioná-lo a
ter um estilo de vida parecido com os deles próprios: antipáticos,
conservadores e anti-sociais. O imigrante vai se sentindo sufocado, sem
espaço para nada, e de forma psicótica começa a se identificar com a
antiga inquilina. Uma parábola muito atual sobre preconceito e a
rejeição que forasteiros recebem em um novo ambiente e o fato do
próprio Polanski – nascido na França de pais poloneses –, fazer o
protagonista diz muito sobre suas próprias experiências de pessoa sem
uma única raiz, sempre por terras estranhas, o que só reforça a
verossimilhança da história. A destacar também o seu roteiro,
realmente primoroso, espetacular, ainda mais pela seqüência final, que
é de ‘cair o queixo’. E tudo permeado pela morbidez das imagens,
assinadas pelo mestre sueco Sven Nikvist, o mesmo que acompanhou a maior
parte dos filmes do genial Ingmar Bergman.
De
uma forma mais explícita o diretor volta ao horror em 1999, com o filme
O Último Portal (The Ninth Gate). Aqui o demonismo volta
à cena. Um perito em livros raros – Johnny Depp, ótimo no papel –,
é contratado por um misterioso colecionador de livros sobre satã. Sua
tarefa é comparar o exemplar de O Nono Portal com os únicos
dois existentes que estão na mão de outros colecionadores na Europa.
Apenas de posse do livro original, o colecionador – interpretado por
outro ator habitual ao gênero, Frank Langella –, poderia invocar a
presença física do diabo. O filme tem seu forte na inspiração visual
e no clima sombrio, misterioso da trama. E conforme o personagem de Depp
vai se envolvendo na pesquisa, alguns eventos inexplicáveis e mortais
acontecem ao seu redor, numa mistura de medo e fascínio que ele não
mais controla. A temática dos livros raros dos tempos medievais com
poderes sobrenaturais é comum ao gênero, e neste filme em particular
Polansky não está muito inspirado, com uma direção e roteiro um
tanto irregular e com final previsível.
Neste
ano, Polanski recebeu um Oscar como melhor diretor pelo filme O Pianista
(The Pianist), que já havia levado a Palma de Ouro no Festival
de Cannes de 2002. É, como se sabe, um filme sobre o holocausto nazista
– o horror maior do século 20 –, podendo ser também identificado
como mais um mergulho do diretor em seus próprios pesadelos pessoais.
Mas o que quero acentuar aqui é que o fato de Polanski ser um diretor
de primeira linha, com um cinema sofisticado, que se situa muito bem
entre o comercial e o artístico, não impediram que ele fizesse alguns
dos filmes de horror e suspense mais originais, influentes e marcantes
de todo o gênero. Digo isso, porque paira entre alguns críticos e
fãs, uma certa defesa de uma postura antiintelectual, que o horror como
gênero, seria mais limitado, tosco, e que artistas com maior refino e
sutileza não se dariam tão bem com o gênero, pois este prescinde de
uma certa força explícita. Um equívoco, como nos mostra Polanski. Um
artista talentoso e sofisticado sim, que mergulhou no suspense e no
horror como uma forma de expiar seus próprios sofrimentos e demônios
interiores. E que é, na minha modesta visão, além de sutil e
estilista, um excelente contador de histórias. E o horror só
teve a ganhar com isso.
Marcello
Simão Branco é jornalista e cientista político. Edita o fanzine de
ficção científica e horror Megalon desde 1988, além de ser
sócio da Editora Ano-Luz e por ela, editar e organizar o livro de
contos Outras Copas, Outros Mundos, em 1998. Comentários e
sugestões de temas para esta coluna podem ser enviados para o seu
e-mail: marcellobranco@ig.com.br.
|
|