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Megalon

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Sombras à Espreita
20/07/2003

Uma apresentação

Olá amigo. A convite do Marco Bourguignon estou estreando uma coluna sobre o gênero Horror para o site da Scarium. Não que eu me considere um especialista no assunto, embora sempre tenha gostado de ver filmes de horror desde pequeno. Lembro que acompanhava com uma mistura de medo e fascínio a sessão "Calafrio", que era exibida sábado à noite na TV Record de São Paulo, em meados dos anos 70. Passava basicamente, os hoje clássicos filmes de horror da produtora inglesa Hammer. Vários deles, sendo os mais marcantes A Maldição de Frankenstein (1957), Horror de Drácula (1958), A Górgona (1964) e Drácula, o Príncipe das Trevas (1966).

Era difícil dormir no escuro – ou mesmo no claro! –, depois de assistir estes filmes que – iria saber muitos anos depois –, reinterpretaram um gênero então falido para o cinema, depois dos sucessos da produtora americana Universal, nos anos 30. Chamava a atenção especialmente a fotografia com um colorido vivo e contrastante, uma direção estilosa, além de roteiros violentos e sensuais. E igualmente marcante devido às presenças antológicas dos astros Peter Cushing e Christopher Lee...

Nos quadrinhos comprava e lia, vez por outra, a revista Kripta, com histórias realmente impressionantes, tanto pela qualidade do traço em preto e branco, como do roteiro, inspiradas que eram em autores clássicos da literatura como H.P. Lovecraft, Edgar Allan Poe, Frank Belknap Long e Ray Bradbury, entre outros. E nos livros, meu interesse foi bem mais tardio, já adulto, começando a ler muito Lovecraft e Stephen King, entre alguns poucos outros, fazendo apenas uma ou outra ‘descoberta’ pessoal, como por exemplo no ano passado quando fui apresentado a Algernon Blackwood. Bom, mas estes detalhes específicos eu contarei numa outra oportunidade.

Por ora, basta dizer que tenho alguma, digamos, intimidade com o gênero de forma mais direta há pelo menos 15 anos. Isso porque, o meu fanzine, o Megalon foi – pelo que me consta – o primeiro no país a explicitar publicamente que o Horror era um dos gêneros a serem abordados em suas páginas. E a idéia não foi minha e sim do amigo Renato Rosatti. É que, quando propus a ele a criação de um fanzine de ficção científica - em meados de setembro de 1988 -, ele me colocou a condição de que co-editaria a publicação, desde que a FC dividisse as páginas com o gênero de sua preferência, o Horror.

Aceitei na hora, por também gostar do gênero, por permitir a participação do Renato e também pela possibilidade de expandir tematicamente, entre os fãs brasileiros de FC, um gênero afim, que é o Horror. Por sinal, o próprio nome do fanzine procurou ser híbrido entre os dois gêneros, ao escolhermos um dos monstros japoneses que enfrentaram o Godzilla, numa clara mistura entre os dois gêneros.

Como o Megalon nasceu sendo um fanzine voltado para o fandom de FC, houve quem torcesse o nariz com a idéia de mesclar FC com Horror. O que era (e é) mais comum para os fãs de FC é a mescla com a Fantasia. Mas a nossa persistência mostrou-se frutífera, incentivando ilustradores, articulistas e escritores de FC a também tentar explorar o terreno do desconhecido sobrenatural.

Alguns anos depois, o Renato deixou a co-editoria do Megalon. Criou seus próprios fanzines, como o Juvenatrix, o Astaroth e mais recentemente o Carnage. Mas se o efeito do Horror permaneceu entre meus interesses artísticos e editoriais, meu ex-parceiro também absorveu um gosto maior pela "minha parte", o seja a FC, também a incluindo tematicamente em seus fanzines.

Minha ligação com o gênero Horror, inclusive, foi além do mero interesse temático do meu fanzine. Ao lado do amigo Cesar Silva – também outro fanzineiro –, organizamos em São Paulo quatro Convenções Multimídias de Horror, que ficaram popularmente conhecidas como HorrorCon, entre os anos de 1995 a 1998. Foi um êxito esplêndido e surpreendente. Centenas de pessoas compareceram em cada uma das quatro edições do evento. Tivemos como convidados de honra, artistas de talento 

reconhecido como os cineastas José Mojica Marins e Ivan Cardoso, o quadrinista Rodolfo Zalla e escritores como Braulio Tavares e Márcia Kupstas. Vários videomakers amadores de todo o Brasil tiveram seu espaço garantido, chamando, até, a atenção da grande imprensa paulistana, tanto em jornais como também nas TVs. Inclusive, as convenções eram anunciadas com reportagens de página inteira nos jornais paulistanos, com uma chamada na primeira página de O Estado de S. Paulo, já em 1995.

Várias ‘tribos’ lá apareciam, desde escritores, cineastas e quadrinistas, até jogadores de RPG, grupos de teatros amadores, metaleiros e góticos. Após a quarta edição, resolvemos dar uma interrompida, por causa de outros afazeres profissionais e por percebermos que a fórmula do evento já começava por se repetir, perdendo um pouco seu caráter de ineditismo e abertura de espaço para novos talentos. De qualquer forma, ecos das quatro edições da HorrorCon repercutem ainda hoje, na forma de contatos e pedidos para que voltemos a realizá-las. Quem sabe?

Nesse meio tempo, ao lado do Cesar, editamos a revista HorrorShow, para a editora Escala. Foram quatro edições durante o segundo semestre de 1996 e primeiro semestre de 1997. Com a publicação, abrimos um espaço inédito para contos de horror numa publicação de cerca de 40 mil exemplares. Também reforçamos institucionalmente uma comunidade brasileira voltada mais especificamente ao gênero, com o surgimento de vários artistas de todo o país e uma porção àvida de fãs. A revista, porém, durou pouco. E, infelizmente, de 1998 para cá, não tivemos mais convenções e nem revistas voltadas ao gênero do medo inominável.

De qualquer forma, tem ocorrido uma presença editorial razoável do gênero nas livrarias nos últimos anos, além de alguns bons sites na internet. Uma 'onda vampiresca' tem assolado as livrarias com romances e relatos pseudoverídicos sobre os mitos e verdades do morcegão chupa-sangue. Entre toda esta leva, destaco e recomendo ao menos a aquisição de duas obras, dentre algumas poucas de real qualidade.

Uma é o tratado O Livro dos Vampiros - A Enciclopédia dos Mortos-Vivos, de J. Gordon Melton. Publicado pela editora Makkron Books, foi publicado pela primeira vez em 1995 (a edição que eu tenho). Agora em 2003 saiu uma edição revista e atualizada desta enciclopédia fundamental sobre o tema do vampirismo nas artes e cultura popular de todas as regiões do planeta. Mas suas 1020 páginas vão muito além do tema original, servindo como um útil guia e fonte de informação sobre o Horror como um todo, além de desmistificar o gênero como algo de primazia anglo-americana, mostrando que o gênero têm raízes históricas e populares muito profundas nas mais diferentes culturas ao redor do mundo.

Minha segunda indicação é o romance Os Sete (2001), escrito pelo prolífico autor paulista André Vianco. Uma história competente, ousada e muito bem narrada, sobre sete vampiros portugueses do século 16, que são despertados no Brasil do fim do século 20. As cenas surpreendem pela força e vivacidade, num relato sem concessões sobre o que os vampiros fazem com meros seres humanos como nós. Não apenas por chuparem o sangue mas, principalmente, por Vianco inovar apresentando poderes especiais e únicos a cada um dos vampiros da história. Depois Vianco escreveu uma continuação, Sétimo (2002), enfocando especificamente um dos sete vampiros originais. Embora não tenha lido este, o quente mesmo é Os Sete, por criar todo um universo ficcional novo e bem desenvolvido. Em breve, deverei abordar especificamente este romance neste espaço gentilmente cedido pelo pessoal da Scarium.

Marcello Simão Branco é jornalista e cientista político. Edita o fanzine de ficção científica e horror Megalon desde 1988, além de ser sócio da Editora Ano-Luz e por ela, editar e organizar o livro de contos Outras Copas, Outros Mundos, em 1998. Comentários e sugestões de temas para esta coluna podem ser enviados para o seu e-mail: marcellobranco@ig.com.br.

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