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Pura magia.
Esta é a melhor definição
para as mais de 800 páginas de "Jonathan Strange & Mr. Norrell",
de Suzanna Clarke, editado em 2005 pela Companhia das Letras, com
tradução de José Antonio Arantes.
Dona de uma prosa
deliciosamente irônica, Suzanna Clarke lança um olhar agudo e ferino
sobre o universo dos... acadêmicos de todas as eras? Políticos de
todas nacionalidades? Da Inglaterra do século XVIII ou XIX? Sobre o
mundo do século XXI? Tudo isso e mais um pouco. Na verdade, cada leitor
poderá encontrar no livro a ironia, a crítica que melhor lhe servir no
momento. E isso com bom humor, graça, capacidade e um texto rigidamente
cortado aos moldes dos contos de fadas. Mas, é claro, quando um
escritor inglês sério fala em fadas, não está falando de
criaturinhas minúsculas e delicadas, incapazes de fazer dano a natureza
ou às criancinhas, que cintilam junto aos botões de rosas, ou passam
abanando delicadas asinhas pela sala cheia de incenso pseudo-indiano
recém queimado. Quando um escritor inglês sério fala em fadas, fala
de criaturas belas como anjos e ardilosas como demônios. Fala de
criaturas com um senso ético muito particular e particularmente
parecido com o senso ético de alguns senhores que freqüentam o
Congresso e o Senado brasileiros. Fala de mortos, fala de vivos, fala de
gente que perde a razão. Quando um escritor inglês sério fala em
fadas, fala em Puck Bom Robim e no Senhor dos Cabelos de Algodão.
À parte dos inúmeros
prazeres que a leitura de "Jonathan Strange & Mr. Norrell"
proporciona, some-se uma imaginação aguda, peculiar, e extremadamente
poderosa, capaz de inovar dentro daquilo que parecia esgotado. De fato,
Clarke em momento nenhum rompe com a tradição dos velhos contos
ingleses. Ao contrário de autoras muito mais conhecidas no momento,
como
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a Rowling e seu
festejado Harry Potter, cujo conjunto da obra não chega nem sequer aos
pés deste único livro, Clarke se move estritamente dentro dos limites
da tradição popular que regulamenta o imaginário dos contos de fairies.
Ao fazê-lo, constrói uma narrativa surpreendentemente crível que
dialoga divertidamente com a realidade e o imaginário.
Talvez se possa criticar o
livro pelas intermináveis notas de pé de página onde a autora derrama
uma imaginação quase mais fértil do que a que se vê no texto. Mas,
pensando bem, ninguém é obrigado a consultar um pé de página, se bem
que neste caso muitas vezes é uma pena não fazê-lo.
Dá igual. O texto de Clarke
flui de uma maneira maravilhosa, levando o leitor consigo de maneira
magistralmente doce sem ser maternal, e às vezes dura como um golpe de
lenha. Cria imagens de uma beleza inesquecível, maldições de uma
grandeza audaciosa e um rei de majestade simples e óbvia, como toda a
verdadeira majestade.
Só para não dizer que o
livro não merece nenhuma crítica mais incisiva, talvez se possa
criticar o desenlace, embora não o final, tão mágico quanto realista,
claro e contemporâneo, além de ser o único fim que se poderia
realmente esperar. Apesar da sua extensão, o livro deixa um gostinho de
"quero mais". Que se repita Neil Gaiman, o criador de Sandman:
o maior defeito de "Jonathan Strange & Mr. Norrell" é ter
somente 800 páginas.
Simone
Saueressig é escritora gaúcha que está lançando o livro "Um
vulto nas trevas" pela Coleção Asa Negra.
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