Pura Magia
Simone Saueressig

Rio, 04 de março de 2006 - Scarium On LIne
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Pura magia.

Esta é a melhor definição para as mais de 800 páginas de "Jonathan Strange & Mr. Norrell", de Suzanna Clarke, editado em 2005 pela Companhia das Letras, com tradução de José Antonio Arantes.

Dona de uma prosa deliciosamente irônica, Suzanna Clarke lança um olhar agudo e ferino sobre o universo dos... acadêmicos de todas as eras? Políticos de todas nacionalidades? Da Inglaterra do século XVIII ou XIX? Sobre o mundo do século XXI? Tudo isso e mais um pouco. Na verdade, cada leitor poderá encontrar no livro a ironia, a crítica que melhor lhe servir no momento. E isso com bom humor, graça, capacidade e um texto rigidamente cortado aos moldes dos contos de fadas. Mas, é claro, quando um escritor inglês sério fala em fadas, não está falando de criaturinhas minúsculas e delicadas, incapazes de fazer dano a natureza ou às criancinhas, que cintilam junto aos botões de rosas, ou passam abanando delicadas asinhas pela sala cheia de incenso pseudo-indiano recém queimado. Quando um escritor inglês sério fala em fadas, fala de criaturas belas como anjos e ardilosas como demônios. Fala de criaturas com um senso ético muito particular e particularmente parecido com o senso ético de alguns senhores que freqüentam o Congresso e o Senado brasileiros. Fala de mortos, fala de vivos, fala de gente que perde a razão. Quando um escritor inglês sério fala em fadas, fala em Puck Bom Robim e no Senhor dos Cabelos de Algodão.

À parte dos inúmeros prazeres que a leitura de "Jonathan Strange & Mr. Norrell" proporciona, some-se uma imaginação aguda, peculiar, e extremadamente poderosa, capaz de inovar dentro daquilo que parecia esgotado. De fato, Clarke em momento nenhum rompe com a tradição dos velhos contos ingleses. Ao contrário de autoras muito mais conhecidas no momento, como 

 

 a Rowling e seu festejado Harry Potter, cujo conjunto da obra não chega nem sequer aos pés deste único livro, Clarke se move estritamente dentro dos limites da tradição popular que regulamenta o imaginário dos contos de fairies. Ao fazê-lo, constrói uma narrativa surpreendentemente crível que dialoga divertidamente com a realidade e o imaginário.

Talvez se possa criticar o livro pelas intermináveis notas de pé de página onde a autora derrama uma imaginação quase mais fértil do que a que se vê no texto. Mas, pensando bem, ninguém é obrigado a consultar um pé de página, se bem que neste caso muitas vezes é uma pena não fazê-lo.

Dá igual. O texto de Clarke flui de uma maneira maravilhosa, levando o leitor consigo de maneira magistralmente doce sem ser maternal, e às vezes dura como um golpe de lenha. Cria imagens de uma beleza inesquecível, maldições de uma grandeza audaciosa e um rei de majestade simples e óbvia, como toda a verdadeira majestade.

Só para não dizer que o livro não merece nenhuma crítica mais incisiva, talvez se possa criticar o desenlace, embora não o final, tão mágico quanto realista, claro e contemporâneo, além de ser o único fim que se poderia realmente esperar. Apesar da sua extensão, o livro deixa um gostinho de "quero mais". Que se repita Neil Gaiman, o criador de Sandman: o maior defeito de "Jonathan Strange & Mr. Norrell" é ter somente 800 páginas.

 

Simone Saueressig é escritora gaúcha que está lançando o livro "Um vulto nas trevas" pela Coleção Asa Negra.

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