Promossea vã
Simone Saueressig

Rio, 04 de março de 2006 - Scarium On LIne
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Um livro de viagens, de suspense ou uma novela romântica? Esta é uma das primeiras dúvidas que assaltam o leitor de "O Historiador", romance de Elizabeth Kostova, editado pela Editora Objetiva em 2005, com tradução de Maria Luiza Newlands.

Como livro de viagens, "O Historiador" até que convence. Passeando pela Europa da Guerra Fria, o romance leva o leitor a lugares como Oxford, Budapeste, Bucareste, Sófia e Istambul, entre muitos outros. Revela lugarejos poucos conhecidos do público, como San-Matthieu-des-Pyrénées-Orientales, ou vilas remotas perdidas no interior da Bulgária, cidades pequenas a sombra de montanhas ou ao pé de mares calmos e deliciosos onde se chega de trem ou de barco.

A construção do texto é outro ponto interessante. Trata-se de uma narrativa picotada, contada através das memórias da personagem principal, de histórias contadas por seu pai e cartas e cartões trocados entre vários personagens. É neste ponto em que "O Historiador" rende seu maior tributo ao romance que definitivamente imortalizou e popularizou a figura que funciona como gancho para a ação: Drácula. O bom e velho conde da Valáquia retorna, mas o que triunfa realmente no texto de Kostova é a capacidade da autora de tecer uma complicada trama de narrativas: apesar da dificuldade que este tipo de discurso apresenta, a autora consegue manter o fio de Ariadne e o leitor não chega a se perder.

Outro acerto é o resgate, ao menos parcial, que Kostova faz do personagem histórico, Vlad Tepes, o pequeno voivoda que, sem o auxílio algum por parte das coroas européias, tentou fazer frente ao poderio otomano que tentava penetrar na Europa através das Balcãs, no século XV, ao mesmo tempo em que enfrentava intrigas palacianas em seu próprio reino. É através deste senhor feudal de importância tão ínfima que sequer aparece nos livros de História, que a autora cria um Conde Drácula mais do que palpável: fascinante. Infelizmente, a memória de Vlad Tepes sobreviveu ao passo dos séculos não graças à bravura com que tentou defender suas terras, mas por causa da crueldade que caracterizava suas ações bélicas – uma crueldade que não era mais do que o horror que inspiravam ações anacrônicas, medievais, em um século destinado a conhecer a genialidade de Leonardo    Da 

 

 Vinci e a concretizar a descoberta de um novo continente. A grande lição que a História nos deixa neste episódio, é que a crueldade sempre nos encanta mais do que a coragem e que o vilão sempre é mais fascinante do que o próprio herói.

Mas os acertos do livro não vão muito além disso. Muito cedo o leitor se dá conta que talvez a história funcionasse melhor nos dias pós-guerra-fria, sobretudo porque muito pouco ou quase nada seria alterado no computo geral dos fatos narrados. Os impedimentos políticos que durante tanto tempo caracterizaram os deslocamentos sob a Cortina de Ferro são tão facilmente transpostos pelos personagens que em alguns momentos a narrativa lembra as costumeiras idas e vindas inconseqüentes que marcaram algumas novelas da Globo.

Entretanto, o pior escorregão que a autora dá é na tentativa de criar o suspense. Tanto promete Kostova, tanto afofa e aduba o terreno da promessa do terror, que esquece da ação propriamente dita. E o suspense, esse arbusto frágil, não chega a florescer. O livro se perde na preparação interminável de uma caçada, na preparação interminável de um encontro, na preparação interminável de uma descoberta, e termina resolvendo o confronto entre as forças do bem e do mal (vamos chamá-las assim) em um único parágrafo. Dá uma nostalgia... uma saudade do senhor Barlow de Stephen King... uma saudade do Conde Drácula de Stoker, uma saudade das histórias de vampiros de Giulia Moon e de Flávia Muniz...

Talvez o principal problema de "O Historiador" seja o que as entrelinhas do texto revelam bem: Kostova, como a imensa maioria dos escritores de histórias de vampiros atuais, amam o monstro. Partem do monstruoso para ir despindo-o de sua terrível indumentária, até torná-lo humano, exatamente como na última versão cinematográfica de "Drácula". Somente Stoker e uns poucos autores têm a coragem de partir do homem para revelá-lo um monstro. Para revelar no homem, o monstro que espreita em todos nós.

Simone Saueressig é escritora gaúcha que está lançando o livro "Um vulto nas trevas" pela Coleção Asa Negra.

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