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Um livro de viagens, de
suspense ou uma novela romântica? Esta é uma das primeiras dúvidas
que assaltam o leitor de "O Historiador", romance de Elizabeth
Kostova, editado pela Editora Objetiva em 2005, com tradução de Maria
Luiza Newlands.
Como livro de viagens,
"O Historiador" até que convence. Passeando pela Europa da
Guerra Fria, o romance leva o leitor a lugares como Oxford, Budapeste,
Bucareste, Sófia e Istambul, entre muitos outros. Revela lugarejos
poucos conhecidos do público, como
San-Matthieu-des-Pyrénées-Orientales, ou vilas remotas perdidas no
interior da Bulgária, cidades pequenas a sombra de montanhas ou ao pé
de mares calmos e deliciosos onde se chega de trem ou de barco.
A construção do texto é
outro ponto interessante. Trata-se de uma narrativa picotada, contada
através das memórias da personagem principal, de histórias contadas
por seu pai e cartas e cartões trocados entre vários personagens. É
neste ponto em que "O Historiador" rende seu maior tributo ao
romance que definitivamente imortalizou e popularizou a figura que
funciona como gancho para a ação: Drácula. O bom e velho conde da
Valáquia retorna, mas o que triunfa realmente no texto de Kostova é a
capacidade da autora de tecer uma complicada trama de narrativas: apesar
da dificuldade que este tipo de discurso apresenta, a autora consegue
manter o fio de Ariadne e o leitor não chega a se perder.
Outro acerto é o resgate, ao
menos parcial, que Kostova faz do personagem histórico, Vlad Tepes, o
pequeno voivoda que, sem o auxílio algum por parte das coroas
européias, tentou fazer frente ao poderio otomano que tentava penetrar
na Europa através das Balcãs, no século XV, ao mesmo tempo em que
enfrentava intrigas palacianas em seu próprio reino. É através deste
senhor feudal de importância tão ínfima que sequer aparece nos livros
de História, que a autora cria um Conde Drácula mais do que palpável:
fascinante. Infelizmente, a memória de Vlad Tepes sobreviveu ao passo
dos séculos não graças à bravura com que tentou defender suas
terras, mas por causa da crueldade que caracterizava suas ações
bélicas – uma crueldade que não era mais do que o horror que
inspiravam ações anacrônicas, medievais, em um século destinado a
conhecer a genialidade de Leonardo Da
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Vinci e a concretizar a
descoberta de um novo continente. A grande lição que a História nos
deixa neste episódio, é que a crueldade sempre nos encanta mais do que
a coragem e que o vilão sempre é mais fascinante do que o próprio
herói.
Mas os acertos do livro não
vão muito além disso. Muito cedo o leitor se dá conta que talvez a
história funcionasse melhor nos dias pós-guerra-fria, sobretudo porque
muito pouco ou quase nada seria alterado no computo geral dos fatos
narrados. Os impedimentos políticos que durante tanto tempo
caracterizaram os deslocamentos sob a Cortina de Ferro são tão
facilmente transpostos pelos personagens que em alguns momentos a
narrativa lembra as costumeiras idas e vindas inconseqüentes que
marcaram algumas novelas da Globo.
Entretanto, o pior
escorregão que a autora dá é na tentativa de criar o suspense. Tanto
promete Kostova, tanto afofa e aduba o terreno da promessa do terror,
que esquece da ação propriamente dita. E o suspense, esse arbusto
frágil, não chega a florescer. O livro se perde na preparação
interminável de uma caçada, na preparação interminável de um
encontro, na preparação interminável de uma descoberta, e termina
resolvendo o confronto entre as forças do bem e do mal (vamos
chamá-las assim) em um único parágrafo. Dá uma nostalgia... uma
saudade do senhor Barlow de Stephen King... uma saudade do Conde
Drácula de Stoker, uma saudade das histórias de vampiros de Giulia
Moon e de Flávia Muniz...
Talvez o principal problema
de "O Historiador" seja o que as entrelinhas do texto revelam
bem: Kostova, como a imensa maioria dos escritores de histórias de
vampiros atuais, amam o monstro. Partem do monstruoso para ir despindo-o
de sua terrível indumentária, até torná-lo humano, exatamente como
na última versão cinematográfica de "Drácula". Somente
Stoker e uns poucos autores têm a coragem de partir do homem para
revelá-lo um monstro. Para revelar no homem, o monstro que espreita em
todos nós.
Simone
Saueressig é escritora gaúcha que está lançando o livro "Um
vulto nas trevas" pela Coleção Asa Negra.
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