|
ARTIGOS
Artigos do Fantástico
Artigos de Ciências
Resenhas de Livros
Scarium Cinema
|
Menos
um mês separou a discussão sobre fantasia brasileira na lista
"gênero fantástico", na Internet, da estréia da série
"Hoje é Dia de Maria", produzida pela Rede Globo de
Televisão. Baseada da obra do dramaturgo Carlos Alberto Sofredinni,
falecido em 2001, a mini-série contou com direção de Luis Fernando de
Carvalho e o trabalho de dezenas de magníficos profissionais, entre
atores, músicos, cenógrafos, maquiadores, figurinistas, bonequeiros,
iluminadores e inúmeras outras atividades ligadas ao palco. E logo de
saída, a mini-série tornou-se um marco na TV brasileira, TV essa,
aliás, marcada por programas (onde incluo as novelas) maravilhosos e,
na mesma medida, medonhos.
A
primeira coisa que chamou a atenção na mini-série foi a rica
estética cênica, marcada tanto pelo talento quanto pela já famosa
criatividade brasileira. Em seguida, o talento de um elenco escolhido à
dedo; a poesia do texto que remeteu de imediato à linguagem do cordel;
as músicas; enfim, para resumir: pela qualidade com que o projeto foi
idealizado e levado à cabo. É verdade que uma gama imensa de
espectadores não assistiu à mini-série, e pelas mais diferentes
razões: uns porque acharam que não iam gostar da história, outros,
mais atentos e capazes de expressá-lo melhor, porque não apreciam
Fantasia. Por seu lado um conhecido meu resumiu à questão com
objetividade exemplar (resumamos outra vez): "é muita cultura para
a minha cabeça", exclamou ele lá pelas tantas. De fato.
"Hoje
é Dia de Maria" veio à calhar na discussão que mantínhamos, e
lamentavelmente, chegou depois que ela tinha terminado. Provou de uma
maneira como nem os maiores defensores da Fantasia de cunho nacional
poderiam fazer, que é possível, sim!, a Fantasia de origem brasileira,
com toda a carga da Fantasia mais tradicional européia – e aí se
incluem as edas, as sagas, e as epopéias épicas – pode oferecer. O
simbolismo dos elementos em cena, a verdade e a sabedoria populares, os
relatos folclóricos e as apropriações de enredos universais e sua
adaptação ao modo de pensar que pontua as histórias do país – como
a Cinderela, transcrito para o ritmo, o verso, ao gosto do sertanejo que
não admite uma esposa (ainda que de um Príncipe) que não saiba
passar, lavar e cozinhar e que abre mão de um "gostar"
repleto de facilidades materiais em nome daquilo que crê ser o Amor
Verdadeiro, sem pensar. Tudo isso contribuiu para fazer desta
mini-série não apenas um marco para a TV brasileira, como queriam seus
idealizadores, como um marco para o fazer da Fantasia neste país. Maria
não era um menino-bruxo, não tinha super-poderes, não contava com um
alter-ego heróico. Não era rainha, não possuía anel mágico, não
lhe foi entregue nenhuma missão para salvar o mundo: ela representa a
criança normal que se depara com um mundo que de tão rico e novo
torna-se mágico. Tudo o que ela precisa para ir e voltar neste mundo
mágico (às vezes lembrando a Dorothy de "O Mágico de Oz",
outras a Alice, de Carrol, sobretudo nos diálogos) é dela mesma, de
sua coragem e de sua inocência – inocência esta que, bem ao gosto
romântico dos contos populares nacionais, não se desfaz nem com o
sofrimento nem com o encontro com o erótico. Para
a mini-série, o amor verdadeiro é
incapaz de desfazer algo que o compõe em seu cerne: a pureza. E assim,
a nudez, o erotismo e o encontro |
|
carnal
do amor verdadeiro revelam-se apenas parte do ser humano em seu melhor
momento – e, bem dentro da psicologia, um ser humano que é aos
dez, aos quinze e aos vinte e cinco.
Acrescente-se
a isso, a inversão no desenrolar de história: a primeira parte de
"Hoje é dia de Maria" não é uma história decorrente dos
acontecimentos posteriores, mas poderia ser. Maria foge porque é
maltratada, e em seu caminho desafia Azmodeu, tripudiando sobre sua
derrota. Como castigo, o demônio rouba-lhe a infância. Mas a esperteza
e a verdade na sua maneira de ser da menina são tantos, que Maria vence
e encontra a felicidade, mesmo quando lhe é roubada a época de ouro da
vida. Na busca de sua vingança, Azmodeu devolve-a à infância e
inocência, justo quando conquistou a felicidade adulta, na esperança
que ela amargue uma infância abandonada. Mas como Maria errou ao
tripudiar sobre seu inimigo, Azmodeu também erra na sede de vingança e
a devolve a um tempo anterior ao da sua fuga, quando tudo estava em
ordem. Na tentativa de corrigir seu erro, o demônio ameaça matar a
família da menina e transformar seu amado em um pássaro, exatamente
como ele se apresentava no início. Mas então Maria possui armas que
adquiriu em seu caminho e é capaz de enfrentar-se ao demônio e
vencê-lo. Ele não teria porque maltratá-la antes dela tripudiar sobre
sua ambição e ela não teria como vencê-lo, se não houvesse voltado
para casa, trilhando o caminho inverso ao de sua ida. A linearidade é
visível. Mas o tempo vai e vem, enrola-se e desenrola-se a tal ponto
que o que é tempo – exatamente como o espaço cênico criado para a
mini-série, sempre o mesmo e sempre diferente – confunde-se com o
mágico e cria a estranheza e a sensação de maravilhoso que exige o
gênero.
Desde
este ponto de vista, a declaração de que "é muita cultura para a
minha cabeça", termina servindo de definição não apenas para a
mini-série em questão, mas para toda a Fantasia de qualidade: Fantasia
realmente boa é aquela que, apropriando-se do Universo que deseja
representar, apresenta continuamente um conjunto de símbolos capazes de
serem reconhecidos ou de falarem ao subconsciente do espectador, onde o
ser humano é mais sensível e onde ele é capaz de realizar as
conexões entre os elementos culturais pessoais e os do grupo a que
pertence, reconhecendo a si mesmo no contexto apresentado. A capacidade
de suspender a realidade corriqueira para crer naquela apresentada e
emocionar-se ou não com ela, dependerá de cada um. A Fantasia, quando
assim feita, é erudita. E como as grandes obras de música, canto e
dança, é capaz de encantar a todas as classes sociais: das mais
simples às mais complexas, passando pelas infinitas leituras que cada
extrato social e cultural é capaz de lhe dar.
Assim,
"Hoje é Dia de Maria" é tanto mais culto quanto mais popular
for compreendido. E com seu roteiro surpreendente, pôs-se ao nível de
um "Alice no País das Maravilhas". Infantil, se o espectador
assim o desejar; adulto, se o espectador assim o preferir. Mas sempre,
em qualquer dos níveis, Fantasia.
Fantasia
brasileira.
Simone
Saueressig é escritora gaúcha que está lançando o livro "Um
vulto nas trevas" pela Coleção Asa Negra.
|
|