Hoje é dia de Brasil
Simone Saueressig

Rio, 07 de setembro de 2005
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Menos um mês separou a discussão sobre fantasia brasileira na lista "gênero fantástico", na Internet, da estréia da série "Hoje é Dia de Maria", produzida pela Rede Globo de Televisão. Baseada da obra do dramaturgo Carlos Alberto Sofredinni, falecido em 2001, a mini-série contou com direção de Luis Fernando de Carvalho e o trabalho de dezenas de magníficos profissionais, entre atores, músicos, cenógrafos, maquiadores, figurinistas, bonequeiros, iluminadores e inúmeras outras atividades ligadas ao palco. E logo de saída, a mini-série tornou-se um marco na TV brasileira, TV essa, aliás, marcada por programas (onde incluo as novelas) maravilhosos e, na mesma medida, medonhos.

A primeira coisa que chamou a atenção na mini-série foi a rica estética cênica, marcada tanto pelo talento quanto pela já famosa criatividade brasileira. Em seguida, o talento de um elenco escolhido à dedo; a poesia do texto que remeteu de imediato à linguagem do cordel; as músicas; enfim, para resumir: pela qualidade com que o projeto foi idealizado e levado à cabo. É verdade que uma gama imensa de espectadores não assistiu à mini-série, e pelas mais diferentes razões: uns porque acharam que não iam gostar da história, outros, mais atentos e capazes de expressá-lo melhor, porque não apreciam Fantasia. Por seu lado um conhecido meu resumiu à questão com objetividade exemplar (resumamos outra vez): "é muita cultura para a minha cabeça", exclamou ele lá pelas tantas. De fato.

"Hoje é Dia de Maria" veio à calhar na discussão que mantínhamos, e lamentavelmente, chegou depois que ela tinha terminado. Provou de uma maneira como nem os maiores defensores da Fantasia de cunho nacional poderiam fazer, que é possível, sim!, a Fantasia de origem brasileira, com toda a carga da Fantasia mais tradicional européia – e aí se incluem as edas, as sagas, e as epopéias épicas – pode oferecer. O simbolismo dos elementos em cena, a verdade e a sabedoria populares, os relatos folclóricos e as apropriações de enredos universais e sua adaptação ao modo de pensar que pontua as histórias do país – como a Cinderela, transcrito para o ritmo, o verso, ao gosto do sertanejo que não admite uma esposa (ainda que de um Príncipe) que não saiba passar, lavar e cozinhar e que abre mão de um "gostar" repleto de facilidades materiais em nome daquilo que crê ser o Amor Verdadeiro, sem pensar. Tudo isso contribuiu para fazer desta mini-série não apenas um marco para a TV brasileira, como queriam seus idealizadores, como um marco para o fazer da Fantasia neste país. Maria não era um menino-bruxo, não tinha super-poderes, não contava com um alter-ego heróico. Não era rainha, não possuía anel mágico, não lhe foi entregue nenhuma missão para salvar o mundo: ela representa a criança normal que se depara com um mundo que de tão rico e novo torna-se mágico. Tudo o que ela precisa para ir e voltar neste mundo mágico (às vezes lembrando a Dorothy de "O Mágico de Oz", outras a Alice, de Carrol, sobretudo nos diálogos) é dela mesma, de sua coragem e de sua inocência – inocência esta que, bem ao gosto romântico dos contos populares nacionais, não se desfaz nem com o sofrimento nem com o encontro com o erótico.   Para   a   mini-série,   o  amor verdadeiro é incapaz de desfazer algo que o compõe em seu cerne: a pureza. E assim, a nudez, o  erotismo  e o encontro

carnal do amor verdadeiro revelam-se apenas parte do ser humano em seu melhor momento – e, bem dentro da psicologia, um ser humano que é aos dez, aos quinze e aos vinte e cinco.

Acrescente-se a isso, a inversão no desenrolar de história: a primeira parte de "Hoje é dia de Maria" não é uma história decorrente dos acontecimentos posteriores, mas poderia ser. Maria foge porque é maltratada, e em seu caminho desafia Azmodeu, tripudiando sobre sua derrota. Como castigo, o demônio rouba-lhe a infância. Mas a esperteza e a verdade na sua maneira de ser da menina são tantos, que Maria vence e encontra a felicidade, mesmo quando lhe é roubada a época de ouro da vida. Na busca de sua vingança, Azmodeu devolve-a à infância e inocência, justo quando conquistou a felicidade adulta, na esperança que ela amargue uma infância abandonada. Mas como Maria errou ao tripudiar sobre seu inimigo, Azmodeu também erra na sede de vingança e a devolve a um tempo anterior ao da sua fuga, quando tudo estava em ordem. Na tentativa de corrigir seu erro, o demônio ameaça matar a família da menina e transformar seu amado em um pássaro, exatamente como ele se apresentava no início. Mas então Maria possui armas que adquiriu em seu caminho e é capaz de enfrentar-se ao demônio e vencê-lo. Ele não teria porque maltratá-la antes dela tripudiar sobre sua ambição e ela não teria como vencê-lo, se não houvesse voltado para casa, trilhando o caminho inverso ao de sua ida. A linearidade é visível. Mas o tempo vai e vem, enrola-se e desenrola-se a tal ponto que o que é tempo – exatamente como o espaço cênico criado para a mini-série, sempre o mesmo e sempre diferente – confunde-se com o mágico e cria a estranheza e a sensação de maravilhoso que exige o gênero.

Desde este ponto de vista, a declaração de que "é muita cultura para a minha cabeça", termina servindo de definição não apenas para a mini-série em questão, mas para toda a Fantasia de qualidade: Fantasia realmente boa é aquela que, apropriando-se do Universo que deseja representar, apresenta continuamente um conjunto de símbolos capazes de serem reconhecidos ou de falarem ao subconsciente do espectador, onde o ser humano é mais sensível e onde ele é capaz de realizar as conexões entre os elementos culturais pessoais e os do grupo a que pertence, reconhecendo a si mesmo no contexto apresentado. A capacidade de suspender a realidade corriqueira para crer naquela apresentada e emocionar-se ou não com ela, dependerá de cada um. A Fantasia, quando assim feita, é erudita. E como as grandes obras de música, canto e dança, é capaz de encantar a todas as classes sociais: das mais simples às mais complexas, passando pelas infinitas leituras que cada extrato social e cultural é capaz de lhe dar.

Assim, "Hoje é Dia de Maria" é tanto mais culto quanto mais popular for compreendido. E com seu roteiro surpreendente, pôs-se ao nível de um "Alice no País das Maravilhas". Infantil, se o espectador assim o desejar; adulto, se o espectador assim o preferir. Mas sempre, em qualquer dos níveis, Fantasia.

Fantasia brasileira.

 

Simone Saueressig é escritora gaúcha que está lançando o livro "Um vulto nas trevas" pela Coleção Asa Negra.

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