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"Harry,
por favor!"
Eu
bem que gostaria de ter ganhado cinco reais por cada vez que li esta
frase em algum livro das aventuras de Harry Potter, quando algum dos
seus amigos, muito mais sensatos do que ele, lhe pediam para manter a
cabeça fria. Potter é um poço de confusões, uma máquina de se meter
em encrencas. Vá lá, sem as encrencas não haveria aventuras nem as
horas garantidas de diversão. Mas se ele fosse meu aluno, com certeza
eu teria ainda menos paciência com ele do que Severo Snape, o único
professor que o personagem tem que realmente é professor. Bom, temos
Minerva MacGonagal também. Mas se acabou.
Li
os cinco volumes já editados da série do menino bruxo. Há uma imensa
qualidade na prosa de Rowling: ela sabe como prender a sua atenção,
mesmo que você ache – como eu – que ela é uma trapaceira. Domina
perfeitamente a narrativa de histórias de mistério (eu não disse fantasia,
eu disse mistério). E se na maioria das vezes utiliza o
lugar-comum do fantástico infantil – de maneira escandalosa e
irritante, – logo nos brinda com pérolas de imaginação que nos faz
sacudir a cabeça e suspirar irritados: por quê alguém capaz de
imaginar coisas tão divertidas e criativas se dá ao luxo de apelar à
preguiça ?
Por
exemplo, tome-se o caso de Perebas (o rato de estimação de Rony Wesley)
e Bichento (o gato de Harmione Granger), no terceiro título da série, Harry
Potter e o Prisioneiro de Azkban. Tão logo Bichento entra em cena,
arma-se um conflito, porque o gato, como parece gritantemente óbvio,
quer comer o rato. E o caro leitor dirá "bem é uma situação
clássica, o gato contra o rato. Afinal, o primeiro costuma comer o
segundo, é assunto de um milhão de histórias infantis." Certo,
carís(ss)simo leitor, mas você está deixando passar uma das maiores
trapaças da história de Rowling: porque Perebas morre de medo de
Bichento no terceiro volume e não dá a mínima para Edwiges, a coruja
de Harry, no volume anterior ? Afinal de contas, ratos são o
principal alimento de corujas, ratos vivos, uma vez que elas são
predominantemente caçadoras.
Coisas
como essa irritam e desanimam qualquer leitor mais atento – sobretudo
se tiver adquirido uma certa simpatia por Harry. É quando, querendo ou
não, a gente têm de concordar com Harold Bloom e outros críticos da
obra da escritora quando eles dizem que ela não passa de uma romancista
de quinta categoria. À parte de outros detalhes mais técnicos
apontados na própria construção da prosa da autora, enormes trapaças
costuram sua narrativa, sempre que ela cria uma situação complicada
demais, da qual não tem a menor idéia de como sair. Por exemplo, a
capa da invisibilidade, que Harry recebe no primeiro volume como algo
muitíssimo especial. A única função da capa de invisibilidade no
enredo da Pedra Filosofal é permitir ao trio de protagonistas
circular pela escola sem ser visto. É bem verdade que Harry a utiliza
em diferentes momentos dos demais livros, mas cá entre nós, se eu
fosse aluno de Howgarts e tivesse a intenção de andar sem ser visto,
me esforçaria por aprender, antes, algum encantamento de invisibilidade
como os que aparecem no quinto livro (ligados aos chapéus vendidos
pelos Gêmeos Wesley, e às classe de desaparição). Isso me livraria
de uma peça incômoda, que pode ficar presa em uma quina de móvel e me
denunciar no pior momento, por exemplo. A capa de invisibilidade só
seria realmente um maravilhoso presente útil, se não houvessem
encantamentos de invisibilidade. A partir da compreensão de tal
feitiço, ela se torna um apetrecho antigo e sem muita serventia.
Em
cada livro da série, a autora se dá ao luxo de uma trapaça deste
tamanho, e em cada aventura subseqüente parece esquecer do que foi
escrito no livro anterior. Por exemplo: em Harry Potter e a
Câmara Secreta, a autora arma tudo para que um Potter heróico mas
completamente desarmado (e por isso ainda mais heróico, parece...)
enfrente um basilisco feito e direito. Mas heis que no momento chave,
surge a fênix de Dumbledore e lhe põe na mão uma espada (!!). A
autora não poderia ter introduzido isso antes? Por quê? Acaso
pareceria menos heróico um menino de doze anos enfrentando um bicho de
três metros de altura, só por ter nas mãos uma espada?
Em
Harry Potter e o Prisioneiro de Azkban a trapaça é o famoso
relógio que Harmione usa para atrasar o tempo. A pecinha não poderia
aparecer ao longo da história antes? Ou é que que Rowling não
sabia como resolver o impasse que se formou depois de uns quantos
capítulos? E o retorno de Vold... perdão, Aquele Que Não Deve Ser
Nomeado (me surpreende que uma das lições mais
importantes do |
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primeiro
livro ainda não tenha sido aprendida por seu público, e a
autora repita semelhante bobagem ao longo de bem mais de mil páginas)
no final de Harry Potter e o Cálice de Fogo? Se você não quer
que a volta de seu vilão predileto soe forçada, simplesmente não o
mate no primeiro volume. Será que é algo tão difícil de compreender?
Isso para não contar, naturalmente, que Harry é o único concorrente
abaixo da idade determinada pelas regras do concurso do quarto volume (o
Tribruxo), quebrando estupidamente, desnecessariamente e antipaticamente
regras inventadas pela própria escritora para dar mais emoção a uma
história que não precisa de mais do que já têm. Parece às vezes que
Rowling não acredita em sua própria prosa e recorre a suberterfúgios
dramáticos de quinta categoria para ter certeza de que está prendendo
a atenção do leitor.
Agora,
sem dúvida, a Sala Preciso de Harry Potter e a Ordem da Fênix
é o pior de tudo até agora. Não é apenas um erro desde o ponto de
vista da narrativa: é uma trapaça com o leitor, tão clara que até
parece Agatha Christie escondendo provas, só para que seus detetives
pareçam mais geniais do que são. A Sala Preciso está lá quando os
personagens precisam, do tamanho que necessitam, com tudo o que precisam
dentro – e como seria diferente com semelhante nome? Mas cá entre
nós, até está que vos fala encontra uma maneira mais convincente para
introduzir semelhante conceito na história do que pô-lo na boca de um
prestativo Dooby, que aparece apenas em dois momentos do quinto volume:
para falar da sala para Harry e para avisá-lo que está prestes a ser
pego pela professora mais idiota de que já tive notícias. Pobre Dooby,
não serve para muitas outras coisas. Creio que terminarei me aliando ao
FALE.
E
há mais, muito mais. É só ler com um pouco de senso crítico. Só
para citar o exemplo que funciona como mola propulsora da história,
está o fato de Harry ser um solitário absoluto no mundo dos trouxas.
Ora, não acredito nem um segundo que o protagonista não tenha nenhum
amigo trouxa de sua primeira infância. Experiência própria: fui uma
criança esquisita, com uma tendência à marginalidade por andar por
aí falando sozinha. "Maluca" era um "elogio" que eu
ouvia com certa freqüência. Mas o que essa esquisitisse me ensinou é
que por pior que você seja, sempre encontra alguém com quem conversar,
um colega, um professor disposto a lhe ouvir, uma vendedora de laranjas
que simpatiza com você. Alguém, enfim. Ninguém é uma ilha, não
porque sejamos mais ou menos normais, mas porque vivemos em uma
sociedade. Vivemos em grupo. Quando se vive em grupo, inevitavelmente
formam-se laços. Assim que, a história não cola. Isso para não dizer
que num mundo onde a diversidade de ensino é algo básico, Howgarts é
uma escola para lá de retrógrada. Filho meu não estuda lá. Os alunos
não aprendem nenhum idioma extra (nem mesmo latim ou grego, ou
egípcio. Como eles vão usar antigos feitiços, se não sabem o que
está escrito em velhos pergaminhos?), música (muitas atividades
mágicas estão diretamente ligas à música e ao canto, pelo que eu
saiba), não encenam teatro, nem estudam balé ou dança medieval, o que
seja. A única coisa que fazem além de estudar as matérias referentes
à magia, é jogar quadribol. Se você tiver medo de altura ou não for
bom no jogo, não terá nada à fazer em Howgarts nas poucas horas de
folga, além de azarar colegas e curtir com o resultado de magia
fora-da-lei. Os Gêmeos Wesley, apesar de serem meus personagens
prediletos, são o melhor exemplo disso. Se Jorge e Fred estivessem
encenando alguma peça de Shakespeare, teriam menos tempo para inventar
tolices.
Talvez
o leitor pense que eu detesto a série e seus personagens. Longe disso.
Mas lamentavelmente as melhores páginas de Rowling são sempre o
início de seus livros. As primeiras quarenta páginas, digamos, são
sempre as melhores. Depois quando a escola de magia entra em cena, que
contradição!, a magia da história se perde nas entrelinhas de um
texto que freqüentemente é forçado e estridente. Aliás, falando no
início, o final de cada livro é bastante abrupto. Eu já começo a me
perguntar se a autora saberá dar fim à série e saberá colocar o
ponto final da última página do último volume. Resta esperar para ver
se ela será capaz de fazer um final – sem trapaças – a altura da
série que criou, ou se a terminará com um seco ponto final, depois de
alguma cena idiota e apelativa, daquelas que só escrevem os autores que
não confiam no próprio talento. Muito temo que não.
Simone
Saueressig é escritora gaúcha que está lançando o livro "Um
vulto nas trevas" pela Coleção Asa Negra.
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