Trapaça sobre trapaça
Simone Saueressig

 

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"Harry, por favor!"

Eu bem que gostaria de ter ganhado cinco reais por cada vez que li esta frase em algum livro das aventuras de Harry Potter, quando algum dos seus amigos, muito mais sensatos do que ele, lhe pediam para manter a cabeça fria. Potter é um poço de confusões, uma máquina de se meter em encrencas. Vá lá, sem as encrencas não haveria aventuras nem as horas garantidas de diversão. Mas se ele fosse meu aluno, com certeza eu teria ainda menos paciência com ele do que Severo Snape, o único professor que o personagem tem que realmente é professor. Bom, temos Minerva MacGonagal também. Mas se acabou.

Li os cinco volumes já editados da série do menino bruxo. Há uma imensa qualidade na prosa de Rowling: ela sabe como prender a sua atenção, mesmo que você ache – como eu – que ela é uma trapaceira. Domina perfeitamente a narrativa de histórias de mistério (eu não disse fantasia, eu disse mistério). E se na maioria das vezes utiliza o lugar-comum do fantástico infantil – de maneira escandalosa e irritante, – logo nos brinda com pérolas de imaginação que nos faz sacudir a cabeça e suspirar irritados: por quê alguém capaz de imaginar coisas tão divertidas e criativas se dá ao luxo de apelar à preguiça ?

Por exemplo, tome-se o caso de Perebas (o rato de estimação de Rony Wesley) e Bichento (o gato de Harmione Granger), no terceiro título da série, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkban. Tão logo Bichento entra em cena, arma-se um conflito, porque o gato, como parece gritantemente óbvio, quer comer o rato. E o caro leitor dirá "bem é uma situação clássica, o gato contra o rato. Afinal, o primeiro costuma comer o segundo, é assunto de um milhão de histórias infantis." Certo, carís(ss)simo leitor, mas você está deixando passar uma das maiores trapaças da história de Rowling: porque Perebas morre de medo de Bichento no terceiro volume e não dá a mínima para Edwiges, a coruja de Harry, no volume anterior ? Afinal de contas, ratos são o principal alimento de corujas, ratos vivos, uma vez que elas são predominantemente caçadoras.

Coisas como essa irritam e desanimam qualquer leitor mais atento – sobretudo se tiver adquirido uma certa simpatia por Harry. É quando, querendo ou não, a gente têm de concordar com Harold Bloom e outros críticos da obra da escritora quando eles dizem que ela não passa de uma romancista de quinta categoria. À parte de outros detalhes mais técnicos apontados na própria construção da prosa da autora, enormes trapaças costuram sua narrativa, sempre que ela cria uma situação complicada demais, da qual não tem a menor idéia de como sair. Por exemplo, a capa da invisibilidade, que Harry recebe no primeiro volume como algo muitíssimo especial. A única função da capa de invisibilidade no enredo da Pedra Filosofal é permitir ao trio de protagonistas circular pela escola sem ser visto. É bem verdade que Harry a utiliza em diferentes momentos dos demais livros, mas cá entre nós, se eu fosse aluno de Howgarts e tivesse a intenção de andar sem ser visto, me esforçaria por aprender, antes, algum encantamento de invisibilidade como os que aparecem no quinto livro (ligados aos chapéus vendidos pelos Gêmeos Wesley, e às classe de desaparição). Isso me livraria de uma peça incômoda, que pode ficar presa em uma quina de móvel e me denunciar no pior momento, por exemplo. A capa de invisibilidade só seria realmente um maravilhoso presente útil, se não houvessem encantamentos de invisibilidade. A partir da compreensão de tal feitiço, ela se torna um apetrecho antigo e sem muita serventia.

Em cada livro da série, a autora se dá ao luxo de uma trapaça deste tamanho, e em cada aventura subseqüente parece esquecer do que foi escrito no livro anterior. Por exemplo: em Harry Potter e a Câmara Secreta, a autora arma tudo para que um Potter heróico mas completamente desarmado (e por isso ainda mais heróico, parece...) enfrente um basilisco feito e direito. Mas heis que no momento chave, surge a fênix de Dumbledore e lhe põe na mão uma espada (!!). A autora não poderia ter introduzido isso antes? Por quê? Acaso pareceria menos heróico um menino de doze anos enfrentando um bicho de três metros de altura, só por ter nas mãos uma espada?

Em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkban a trapaça é o famoso relógio que Harmione usa para atrasar o tempo. A pecinha não poderia aparecer ao longo da história antes? Ou é que que Rowling não sabia como resolver o impasse que se formou depois de uns quantos capítulos? E o retorno de Vold... perdão, Aquele Que Não Deve Ser Nomeado (me surpreende que uma das  lições    mais   importantes   do

primeiro livro ainda não tenha sido aprendida por seu público, e a autora repita semelhante bobagem ao longo de bem mais de mil páginas) no final de Harry Potter e o Cálice de Fogo? Se você não quer que a volta de seu vilão predileto soe forçada, simplesmente não o mate no primeiro volume. Será que é algo tão difícil de compreender? Isso para não contar, naturalmente, que Harry é o único concorrente abaixo da idade determinada pelas regras do concurso do quarto volume (o Tribruxo), quebrando estupidamente, desnecessariamente e antipaticamente regras inventadas pela própria escritora para dar mais emoção a uma história que não precisa de mais do que já têm. Parece às vezes que Rowling não acredita em sua própria prosa e recorre a suberterfúgios dramáticos de quinta categoria para ter certeza de que está prendendo a atenção do leitor.

Agora, sem dúvida, a Sala Preciso de Harry Potter e a Ordem da Fênix é o pior de tudo até agora. Não é apenas um erro desde o ponto de vista da narrativa: é uma trapaça com o leitor, tão clara que até parece Agatha Christie escondendo provas, só para que seus detetives pareçam mais geniais do que são. A Sala Preciso está lá quando os personagens precisam, do tamanho que necessitam, com tudo o que precisam dentro – e como seria diferente com semelhante nome? Mas cá entre nós, até está que vos fala encontra uma maneira mais convincente para introduzir semelhante conceito na história do que pô-lo na boca de um prestativo Dooby, que aparece apenas em dois momentos do quinto volume: para falar da sala para Harry e para avisá-lo que está prestes a ser pego pela professora mais idiota de que já tive notícias. Pobre Dooby, não serve para muitas outras coisas. Creio que terminarei me aliando ao FALE.

E há mais, muito mais. É só ler com um pouco de senso crítico. Só para citar o exemplo que funciona como mola propulsora da história, está o fato de Harry ser um solitário absoluto no mundo dos trouxas. Ora, não acredito nem um segundo que o protagonista não tenha nenhum amigo trouxa de sua primeira infância. Experiência própria: fui uma criança esquisita, com uma tendência à marginalidade por andar por aí falando sozinha. "Maluca" era um "elogio" que eu ouvia com certa freqüência. Mas o que essa esquisitisse me ensinou é que por pior que você seja, sempre encontra alguém com quem conversar, um colega, um professor disposto a lhe ouvir, uma vendedora de laranjas que simpatiza com você. Alguém, enfim. Ninguém é uma ilha, não porque sejamos mais ou menos normais, mas porque vivemos em uma sociedade. Vivemos em grupo. Quando se vive em grupo, inevitavelmente formam-se laços. Assim que, a história não cola. Isso para não dizer que num mundo onde a diversidade de ensino é algo básico, Howgarts é uma escola para lá de retrógrada. Filho meu não estuda lá. Os alunos não aprendem nenhum idioma extra (nem mesmo latim ou grego, ou egípcio. Como eles vão usar antigos feitiços, se não sabem o que está escrito em velhos pergaminhos?), música (muitas atividades mágicas estão diretamente ligas à música e ao canto, pelo que eu saiba), não encenam teatro, nem estudam balé ou dança medieval, o que seja. A única coisa que fazem além de estudar as matérias referentes à magia, é jogar quadribol. Se você tiver medo de altura ou não for bom no jogo, não terá nada à fazer em Howgarts nas poucas horas de folga, além de azarar colegas e curtir com o resultado de magia fora-da-lei. Os Gêmeos Wesley, apesar de serem meus personagens prediletos, são o melhor exemplo disso. Se Jorge e Fred estivessem encenando alguma peça de Shakespeare, teriam menos tempo para inventar tolices.

Talvez o leitor pense que eu detesto a série e seus personagens. Longe disso. Mas lamentavelmente as melhores páginas de Rowling são sempre o início de seus livros. As primeiras quarenta páginas, digamos, são sempre as melhores. Depois quando a escola de magia entra em cena, que contradição!, a magia da história se perde nas entrelinhas de um texto que freqüentemente é forçado e estridente. Aliás, falando no início, o final de cada livro é bastante abrupto. Eu já começo a me perguntar se a autora saberá dar fim à série e saberá colocar o ponto final da última página do último volume. Resta esperar para ver se ela será capaz de fazer um final – sem trapaças – a altura da série que criou, ou se a terminará com um seco ponto final, depois de alguma cena idiota e apelativa, daquelas que só escrevem os autores que não confiam no próprio talento. Muito temo que não.

Simone Saueressig é escritora gaúcha que está lançando o livro "Um vulto nas trevas" pela Coleção Asa Negra.

 

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