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Imagine
que todos os seus parentes são, sem trocadilho, vampiros, bruxas,
múmias, fantasmas. Eles podem voar, vivem milhares de anos, e, apesar
de terem hábitos estranhos, não tomarem sol há séculos e serem, não
exatamente por isso, um bocado pálidos, são estupendos.
Agora
você, sinto muito, você é um simples garoto. Um sujeito normal, não
fosse a sua família. Você não tem asas, sente sono quando todo mundo
está começando a festa, dorme em uma cama, para seu próprio desgosto
e, o que é pior: você é mortal. E sabe disso.
Esse
é o dilema vivido por Timothy, o protagonista de "Uma Estranha
Família", uma deliciosa recompilação de contos fantásticos de
Ray Bradbury, editado pela Ediouro em 2002. O livro reúne vários
clássicos do autor em torno da Família Elliot, um fascinante conjunto
de seres que são, antes de mais nada uma ode ao mundo do terror e do
fantástico. Lá estão jóias como, "A Bruxa de Outubro" ou
"No Expresso do Oriente, rumo ao Norte", sem contar com o
próprio "A volta ao Lar" que, ao lado de "O Tio Einar",
figuram na maravilhosa coletânea "O País de Outubro".
Conto
que deu origem aos estranhos membros da Família Elliot , "A volta
ao Lar" foi publicado primeiramente em uma edição de outubro da
revista Mademoiselle, por volta de 1945. A narrativa sobre uma festa de
bruxas, em uma casa de bruxas, vivenciado por um menino sensível e
normal de nove anos é um texto que dificilmente passa desapercebido,
não só pela idéia – àquelas alturas dos acontecimentos, A Família
Adams começava a sua própria e divertida saga, e idéia da vida de uma
criança "normal" entre tantos "anormais", desafiava
perfidamente o conceito de o que é, afinal de contas
"normal", – mas sobretudo, pelo lirismo como é contada. É
assim que os contos de "Uma estranha família" nos faz
refletir sobre as esquisitices dos amigos, dos primos, dos tios, nos faz
ver com outros olhos aquilo que se convencionou chamar de
"deficiência" levando-nos à falsos moralismos e preconceitos
nem sempre percebidos. Frente aos seus parentes, quase imortais de tão
velhos, possuidores de dons maravilhosos, Timothy sente-se menor,
frágil e incapaz. |
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Aí
é que Bradbury nos encanta ao falar de amor com uma simplicidade que
toca e emociona. E também nos lembra que freqüentemente aqueles que
consideremos "deficientes" em alguma coisa, geralmente o
compensa com outro dom. No caso de Timothy parece um dom simplório:
cabe-lhe a tarefa de lembrar. Mas ao recordar que ser diferente é a
norma na família Elliot, chega-se rapidamente a conclusão de que
talvez lembrar seja o dom mais maravilhoso que nos cabe: o único que
realmente vence a Morte, o Medo e o Terror. Assim, cultivar a memória
como uma benção, e não viver eternamente no passado como os
semi-mortos, é, sobretudo, tarefa dos vivos. Por isso, ao protagonista
tem a difícil missão de simplesmente viver, porque isso é o que dará
sentido à desaparição sem sentido dos que ama.
"Uma
estranha família" também é um lamento pela perda do mistério no
mundo em que vivemos, um mundo vacinado contra fantasmas, esterilizado
contra vampiros. Escreve-se sobre eles, porque no fundo os amamos,
porque é mais fácil lidar com a insensibilidade do monstro do que com
a física realidade da bala perdida, o acidente automobilístico, o
desemprego. Mas o mistério de que estão feitos cada vez tem menos
espaço em nosso mundo, clean, tecnológico e cada vez mais futurista,
um mundo feito de uma Ficção Científica aterradora, onde alguns tem
absolutamente tudo e outros não tem sequer água para beber, e tanto
mais aterradora esta FC, porque real. Não há mistério que resista às
nossas luzes de halógeno, à comunicação instantânea, ao descaso. O
mistério resiste ao racional, à explicação científica, à
incredulidade, mas não à publicidade excessiva que leva ao
aborrecimento ou à credulidade total. Nosso mundo é, cada dia mais uma
vitória sobre a superstição. Mas uma perda para a sensibilidade
humana. E o fantasma, afinal de contas, só assusta de verdade quem diz
não acreditar nele.
Então,
como somos mortais, como só nos resta lembrar, como o Timothy da
Família Elliot, lembremos dos velhos medos. Diante dos novos, eles são
como retratos de tios queridos pendurados em uma parede.
Simone Saueressig é escritora
gaúcha de literatura fantástica
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