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A
história do movimento de fãs brasileiros de Jornada nas Estrelas
(Star Trek) é, curiosamente, muito posterior ao tempo em que a
série já era exibida na TV de nosso país. Quando o seriado estava na
terceira e última temporada nos Estados Unidos, ele chegou ao Brasil.
Era 1968 e a TV Excelsior, de São Paulo, passou a exibi-la. Esta
emissora sofreu um terrível incêndio e cessou suas atividades pouco
tempo depois. A série voltaria ao ar em meados dos anos 70, na TV Tupi,
também de São Paulo, exibida durante alguns anos nos sábados à
tarde. Mais alguns anos de ausência e a série retorna ao ar por meio
da TV Bandeirantes, de São Paulo. Esta emissora passou a ter uma
convivência e exibição longa e intermitente, com várias fases de
exibição e retirada do ar. O período mais longo de exibição foi
entre os anos de 1982 e 1985 – quatro temporadas seguidas, portanto.
Normalmente era exibida à tarde, por volta das dezessete horas. Mas
houve época em que passou às onze da manhã e às oito e meia da noite
– e às vezes em até dois horários em um mesmo dia!
Na
época em que o primeiro fã-clube surgiu, a série não estava sendo
exibida na televisão. Era o início dos anos 80, pouco depois da
exibição do primeiro filme da série no cinema, Jornada nas
Estrelas (Star Trek – The Motion Picture, 1979).
O
grupo era composto, em sua maioria, por fãs que conheciam a série
desde os tempos da primeira exibição no Brasil e durante os anos 70.
Se denominavam como Star Trek Fan Club do Brasil. Vestiam camisetas que
lembravam a série e publicaram um único número de um fanzine chamado Trek
News, editado por Leonardo Bussadori – que anos depois obteve
algum destaque como co-editor do fanzine ... E no Próximo Episódio,
sobre séries de TV.
As
atividades deste grupo inicial de fãs consistiam em reuniões semanais
no fast-food Well’s da Rua Augusta (centro de São Paulo) e
numa loja de fotos e pôsteres de cinema em uma galeria na mesma rua.
Trocavam material, como livros, discos, revistas e informações sobre Jornada
e cinema. Religiosamente todo sábado a partir das duas horas da tarde.
Alguns
dos integrantes foram figuras importantes no fandom de Jornada nas
Estrelas durante vários anos, como o jornalista Sérgio Figueiredo
e Wilson Maffetano, que tinham um conhecimento enciclopédico sobre a
série, capazes de reproduzir falas inteiras dos personagens em
diálogos. Também fazia parte daqueles primeiros tempos, fãs ativos
por alguns anos, como Paulo ‘Spock’ – que era assim chamado porque
era fisicamente muito parecido com o ator Leonard Nimoy –, Pupo – um
dos donos da loja de fotos –, Paolo Fabrizio Pugno, Lee – que
confeccionava as camisetas –, Gustavo Vargas (1) e outros.
Uma
passagem interessante destes anos coube ao Figueiredo. Ele respondeu a
perguntas sobre a série durante algumas semanas, em um programa de
auditório de muito sucesso na TV, chamado "O Céu é o
Limite", apresentado pelo animador J. Silvestre.
Foguetes
e a série
Em
março de 1983, contudo, surgiu aquele que é identificado com o
primeiro fã-clube importante de Jornada nas Estrelas no Brasil,
a Sociedade Astronômica Star Trek (SAST). Inicialmente era uma
associação voltada à divulgação e prática da astronomia amadora e
construção de foguetes experimentais – alguns chegaram a ser
lançados às margens da represa de Guarapiranga, zona sul de São
Paulo. Mas dois de seus principais integrantes resolveram acrescentar a
série entre as atividades do clube. Eram eles, Álvaro Ricardo de Souza
Júnior e Eduardo Brandau Quitete, estudantes do ensino médio do
colégio particular XII de Outubro, em São Paulo.
Ao
contrário da informalidade e descontração do primeiro grupo, a SAST
tinha seu estatuto – que, apesar disso, nunca foi aplicado na prática
–, cadastro dos sócios e publicação do fanzine Star News,
com boa regularidade, além de um dos primeiros do fandom
brasileiro de ficção científica ao lado do Boletim Antares, do
Clube de Ficção Científica Antares, de Porto Alegre. (2)
O
Star News foi publicado de 1983 a 1990, com 43 edições, noventa
por cento delas tendo como editor o presidente do clube, Álvaro
Ricardo. Continha notícias sobre as atividades do clube, informações
sobre a série e sobre astronomia e astronáutica, além de artigos,
textos de divulgação científica e, vez por outras, contos de ficção
científica.
A
SAST mantinha reuniões semanais no sábado à tarde no mesmo Well’s
da Rua Augusta. Isso não é simples coincidência. Os dois grupos de
fãs se conheceram quando o Eduardo Quitete viu na fila de um cinema,
membros do Star Trek Fan Club vestidos com camisetas relativas à
série. Um papo leva a outro, e os dois grupos acabaram se conhecendo e
integrando. A SAST, devido à sua maior organização, agregou os
componentes do primeiro grupo de fãs, que abandonaram aquela
denominação.
A
SAST contava com um quadro associativo expressivo em número (3) e
desanimador em atividade. A maioria dos seus sócios entrou para o clube
motivados pela reprise da série na TV Bandeirantes – de São Paulo
–, entre 1982 e 1985, e pelos sucessos dos filmes no cinema, Jornada
nas Estrelas II, III, IV e V.
Apesar
de muita gente interessante compor a entidade, muito poucos ajudavam
efetivamente. Isso acabou por levar à direção apenas uma pessoa, o
Álvaro Ricardo. Ele ficou cada vez mais identificado pessoalmente com a
instituição, levando-a de acordo com suas preferências e
motivações. Em um certo momento esta dependência excessiva em torno
do presidente ocasionou sérios problemas. Em fins de 1988 alguns
sócios próximos a Álvaro Ricardo reivindicaram mais espaço para
atuar e se fazer ouvir no clube. Eram fãs que haviam entrado para a
organização há poucos anos, sem vínculo com a fundação. Propunham
alterações radicais na estrutura de funcionamento da SAST: redação
de um novo (e efetivo) estatuto, eleição direta para presidente,
reformulação do Star News e registro da entidade como uma
instituição legal reconhecida.
É
possível fazer uma ilação deste movimento com o que o próprio Brasil
vivia: um período de transição de volta à democracia, depois de duas
décadas sob ditadura militar. Nos mais diferentes setores da sociedade,
reivindicava-se mais participação e igualdade entre os cidadãos. Uma
nova Constituição havia sido promulgada, com amplos direitos
políticos, civis e sociais para os cidadãos. Mas no microcosmo social
da SAST, se é possível assim colocar, os ventos democráticos não
foram bem recebidos por sua direção.
Sentindo-se
meio como dono do clube – por ter sido um dos criadores –, além do
fato de conduzi-lo sem muita ajuda até aquele momento, houve uma
resistência vigorosa no sentido de não alterar a situação do clube.
E para isso contribuiu também o fato do próprio presidente nunca ter
cobrado uma maior participação dos sócios – a maioria,
especialmente os mais antigos, omissos e satisfeitos em apenas receber
passivamente o que o presidente fazia.
Em
termos práticos, o presidente Álvaro Ricardo foi apoiado por alguns
membros fundadores, como o Eduardo Quitete – embora este fosse um
pouco mais flexível em aceitar mudanças –, e seu influente
vice-presidente, Heitor Carbone Júnior. Assim a Diretoria não
concordou com as propostas de reformulação e, infelizmente, o clube se
dividiu, com o grupo opositor se retirando da associação. (4)
Novo
clube
Sem
espaço político na SAST, os membros oposicionistas criaram um novo
clube. Assim, nasceu em 28 de maio de 1989 o Trekker’s Club.
E com pompa e circunstância: dentro da programação de uma Semana de
Ficção Científica, no Instituto de Física da Universidade de São
Paulo. Eis os fundadores: Dino Jorge Braga, Gustavo Vargas, Ivo Luiz
Heinz, Marcello Simão Branco, Patrícia Melo, R.C. Nascimento e Solange
Castanheira. Ambicionava por em prática todas as reivindicações
propostas à SAST e, mais que isso, ser a ‘voz oficial’da série no
Brasil.
O
Trekker’s Club começou suas atividades com reuniões mensais na
Livraria Paisagem, situada numa galeria na Avenida São Luís, centro de
São Paulo. Mais precisamente no segundo sábado de cada mês a partir
das nove horas da manhã. Mau sinal: nunca mais de cinco lá apareceram
e ocorreram, se tanto, uns três ou quatro encontros. Publicou também o
seu fanzine, o Trekker’s Log. A maioria das edições teve como
editor o fã Dino Braga (5), durou quatorze números, com periodicidade
irregular e conteúdo precário. Foi o sinal mais evidente do insucesso
e fiasco em que se transformou a associação pouco mais de um ano
depois de sua fundação.
O
fato é que novo clube não deu certo por várias pequenas razões que
se somaram. A Diretoria foi mal escolhida, com pessoas inexperientes e
que se desentendiam facilmente: Solange, presidente; Dino,
secretário-executivo e Ivo, tesoureiro. Além disso, os sócios
fundadores não tiveram a devida compreensão e paciência necessária
para com uma entidade nova e em formação. Outro fato é com relação
à linha de atuação em que foi idealizado o clube. Ele foi muito
influenciado pelo Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC) (6),
quanto à forma de ser conduzido e administrado. Mas o mal não é esse,
mas sim que o Trekker’s Club acabou por se parecer mais com um clube
literário do que o de uma série de televisão. Esqueceu-se que Jornada
nas Estrelas é um espetáculo visual de entretenimento e não de
erudição. Que pode ser apreciado coletivamente, ao passo que um livro
é de caráter individual.
E
a SAST como ficou? Esvaziada e relegada a seus fundadores. Até que o
próprio presidente perdesse o interesse e, na prática, o clube se
extinguisse. (7) Já os fundadores do Trekker’s Club seguiram caminhos
diferentes: uns se integraram a novos grupos de fãs da série; outros
se mantiveram ativos no fandom literário, e houve os que levaram
os desentendimentos para o lado pessoal e se afastaram do convívio da
comunidade de ficção científica, seja a dos trekkers, seja a
literária.
Frota
Estelar Brasil
Mas
no rastro da implosão da SAST e do nascimento do Trekker’s Club
surgiu aquele que se tornou o maior e mais importante clube sobre Jornada
nas Estrelas até esta primeira década do século XXI.
Exatos
seis dias depois da fundação do Trekker’s Club foi criada a Frota
Estelar Brasil (FEB). (8) Mais precisamente no dia 3 de junho, em um
sábado nublado no extinto Cineclube Bixiga, na boêmia Rua 13 de maio,
centro de São Paulo. O auditório estava lotado e o clube nascia sob a
liderança de professores universitários e de ensino médio. Seu
presidente eterno, Luís Ambrósio Navarro era secundado, neste primeiro
momento por Aldo Novak e Amaury Simoni. A entidade apareceu com muita
publicidade e autopromoção, tendo como marca registrada, os sócios
vestidos com o uniforme dos personagens da série clássica. Tinham como
lema "levar o conhecimento científico através da ficção
científica, especialmente Jornada nas Estrelas."
Polêmicas
à parte, a FEB passa a realizar atividades que o fã-médio da série
– que não lê livros de ficção científica, mas assiste a muita
televisão –, espera: entretenimento e consumo. Arregimentam centenas
de jovens fãs, reunindo-os em reuniões periódicas chamadas
pomposamente de Convenções Estelares. Nela exibem episódios das
várias séries da franquia Jornada nas Estrelas, palestras de
curta duração e com temas populares, no qual conceitos científicos
são discutidos tendo por base o seriado ou a ficção cientifica de
modo geral, sorteio de produtos e memorabilias relativas à série.
Estes encontros duravam durante um dia inteiro e havia cobrança de
ingresso para os não-associados.
Trocando
em miúdos: a FEB importou o modelo norte-americano de eventos de fãs,
especialmente os de televisão e cinema, com as devidas adaptações ao
cenário brasileiro. Isso nunca havia existido nos outros clubes, ou
informais demais, ou muito rígidos quanto ao seu funcionamento. E sem o
óbvio: o cultivo à exibição pública dos episódios da série, o
objeto de que, afinal de contas, unia a todos em torno de uma mesma
paixão.
A
FEB também contou com um empurrãozinho: entre os anos de 1991 e 1992,
a rede de TV Manchete, do Rio de Janeiro, voltou a exibir a série,
depois de seis anos de ausência pela TV Bandeirantes. E a boa novidade
não era apenas a reprise da série clássica mas sim a ansiada estréia
no Brasil de Jornada nas Estrelas – A Nova Geração (Star
Trek – The Next Generation). Os integrantes da FEB não perderam
tempo e com senso publicitário aproveitaram a exposição da série
para divulgarem a associação, seja em jornais, rádios, revistas e
programas de televisão os mais variados. Era relativamente comum nestes
primeiros anos da década de 90 vê-los na televisão e na mídia
impressa vestidos ou com o uniforme da série clássica ou então da
nova geração. Algumas reportagens, inclusive, os ridicularizava,
expondo-os como pessoas bizarras e socialmente mal resolvidas. Mas nem
isso lhes tirava o ânimo em divulgar em que meio – e de que forma
fosse – o fã-clube.
Este
modelo de alta publicidade e eventos populares mostrou-se muito
bem-sucedido. Além disso, a FEB tinha atividades cotidianas, digamos,
para as suas centenas de sócios. A começar pelo fanzine Diário de
Bordo, que foi publicado de forma irregular por cerca de doze anos.
Também o conteúdo era muito variado, segundo o editor de ocasião –
e foram vários. Por vezes a prioridade era a série, por outras uma
mescla com popularização científica e ficção científica em geral.
Publicava também boletins informativos com temas específicos e sob o
cuidado de um fã em particular. Assim havia o TrekkerGramma –
notícias –, TrekkerCultura – relação da série com
literatura – e TrekkerBiografia, com resumos biográficos de
atores vinculados à série. (9)
Por
alguns anos existiu também uma curiosa sub-divisão dentro da FEB,
chamada de Divisão de Engenharia. Dois dos sócios, o Ivo Luiz Heinz
– egresso da SAST e do Trekker’s Club e sócio do CLFC – e Paolo
Fabrizio Pugno – vindo do primeiro dos grupos de fãs da série –,
engenheiros de formação, lideravam reuniões no qual se debatiam
assuntos técnicos, ‘treknológicos’ da série. Não só fãs
engenheiros iam às reuniões, mas também fãs em geral interessados
neste aspecto da série. E o êxito rendeu um bom fanzine, chamado Warp
9. Com vinte edições – entre 1993 e 1994 –, era bem produzido
e de boa periodicidade. Foi, possivelmente, o melhor fanzine brasileiro
sobre Jornadas nas Estrelas já realizado. (10)
Rio
de Janeiro
Mas
o movimento de fãs em torno de Jornada nas Estrelas não se
organizou apenas em São Paulo. A ex-capital federal também contou com
um grupo expressivo de fãs. Inicialmente os cariocas se organizaram em
meados dos anos 80 e se integraram à SAST. Sob a liderança da
jornalista Cristina Nastasi, uma comunidade se formou, com atividades
próprias, como reuniões, visitas esporádicas de alguns fãs a São
Paulo – e dos paulistas aos encontros do Rio também. Com a crise da
SAST, eles resolveram manter contato estreito com o novo clube, o
Trekker’s Club, mas também ganharam mais autonomia em torno de um
fanzine, o JetCom – Jornada nas Estrelas: Terminal de
Comunicações. Bem produzido, enfocava a série com sinopses de
seriados, comentários de fãs, artigos, curiosidades e notícias. Durou
entre os anos de 1992 e 1994.
Com
a exibição da série por uma televisão do Rio de Janeiro, alguns fãs
terminaram por ser os próprios dubladores dos personagens, como o fã
Guilherme Briggs, também um bom ilustrador sobre temas relativos à
série. Já a Nastasi se especializou em tradução, como a
autobiografia de Leonard Nimoy, Eu Sou Spock (I Am Spock),
pela editora Mercúrio, em 1997. E também a do importante livro de
referência Star Trek Compendium, de Allan Asherman, que ganhou
uma edição brasileira com o título de Jornada nas Estrelas
Compendium – A Série Clássica, pela editora Sci-Fi Books,
de São Paulo, em 1999. (11)
Com
o passar dos anos e o protagonismo da FEB, os fãs cariocas se
dispersaram, mas proporcionalmente foram os que mais trabalharam
profissionalmente com a série. E eles realizaram ao menos um evento de
alcance nacional. Foi em setembro de 1989, na pré-estréia de Jornada
nas Estrelas V – A Última Fronteira (Star Trek V – The Final
Frontier). Centenas de fãs devidamente uniformizados
e
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fantasiados
lotaram um cinema em um sábado à noite, no Largo do Machado, centro do
Rio, para ver o filme. Dezenas de fãs de São Paulo e outros estados
compareceram.
Visita
de atores
A
FEB não perdeu tempo e promoveu o mesmo evento – em parceria com a
Paramount Pictures no Brasil –, no lançamento do filme seguinte no
cinema, Jornada nas Estrelas VI – A Terra Desconhecida (Star
Trek VI – The Undiscovered Country), em 1992. Fecharam o maior
cinema de São Paulo na época, o Comodoro da Av. São João e lá
estiveram cerca de mil fãs uniformizados em sua maior parte para
assistir à pré-estréia do filme.
Este
talvez tenha sido o primeiro dos mega-eventos que a FEB passou a
organizar. Como já ressaltado, suas reuniões mensais eram muito
populares e concorridas. Mas foram crescendo em tamanho e ambição.
Passaram a ser realizadas apenas quatro vezes por ano, num dos maiores
centros de convenção de São Paulo, o Anhembi, e contaram com uma
estrutura de organização cada vez mais profissional. A cargo destes
eventos esteve o fã e jornalista Christiano de Mello Nunes. Ele também
editou alguns números de um fanzine satírico sobre a série, chamado Galileu,
mas se destacou mesmo como o manager de convenções cada vez
mais bem organizadas e divulgadas. Contava com apoio de agências de
publicidade, releases distribuídos na mídia, parceria com a CIC
Video e a Paramount Pictures no Brasil. Todo este aporte tornou
possível a realização de alguns sonhos de muitos trekkers: a
vinda de atores da série clássica ao país.
O
primeiro deles a desembarcar em São Paulo foi George Takey, o
personagem Sulu da série clássica. Em 28 de setembro de 1996, cerca de
mil fãs lotaram uma das salas de eventos do Anhembi. Oficialmente
marcou a comemoração de 30 anos de Jornada nas Estrelas. Takey
proferiu uma palestra sobre sua participação na série e assinou
dezenas de autógrafos.
Em
2002, seis anos depois, foi a vez de Walter Koenig, o personagem Chekov
da série clássica. (12) Em outro evento com perto de mil pessoas, dia
15 de junho, em São Paulo, no mesmo local do evento anterior, o ator
deu uma palestra e passou um dia inteiro na companhia dos fãs.
No
ano seguinte, o Brasil teve a oportunidade de conhecer mais dois atores.
Primeiro, em 28 de junho em São Paulo, apareceu a atriz Denise Crosby,
a personagem Tasha Yar, da primeira temporada de Jornada nas Estrelas
– A Nova Geração. Ela não veio por meio da FEB e sim da U.S.S.,
uma loja de produtos importados sobre vídeo e cinema. Cerca de 120
pessoas assistiram sua palestra no Sindicato dos Jornalistas do Estado
de São Paulo. A principal motivação da visita da atriz foi a
gravação de um documentário sobre os vários fãs da série em todo o
mundo.
Contudo,
o grande e maior evento da história do movimento de fãs de Jornada
nas Estrelas ocorre quatro meses depois, em 25 de outubro, em São
Paulo. A vinda de Leonard Nimoy foi um acontecimento que extrapolou o
ambiente dos fãs. Ganhou muito espaço na imprensa, jornais, revistas e
reportagens de TV. Apesar da presença de Takey e Koenig ter sido
festejada, o que os fãs sempre desejaram mesmo, era a vinda de um dos
três principais atores, Nimoy, William Shatner ou DeForest Kelley. Como
o Dr. McCoy infelizmente faleceu em 1999, o projeto passou a se
concentrar no Capitão Kirk e no Sr. Spock.
Para
se ter uma idéia da popularidade de Spock, ele é mais conhecido do
público em geral do que a própria série. Mesmo quem não gosta ou
não conhece Jornada nas Estrelas, sabe quem é Spock,
"aquele alienígena de orelhas pontudas." (13) Aproximadamente
mil pessoas também comparecem – no mesmo local dos eventos anteriores
– à convenção que marcou sua visita. Nimoy ficou três dias em São
Paulo e além do evento, concedeu entrevistas e participou de uma
exposição em uma galeria de arte com fotos de sua autoria.
Mesmo
com muita euforia dos fãs e especialmente da FEB, responsável pela
vinda de Nimoy e dos outros atores, este evento marcou, paradoxalmente,
o fim da própria entidade. No momento em que ela atingiu o ápice,
chegou também ao seu ocaso. Já há alguns anos havia discordâncias
quanto à liderança de Luiz Ambrósio Navarro, outro presidente ad
infinitum de clube de fã de Jornada nas Estrelas. Alguns
fãs, como Aldo Novak, saíram da entidade, e tentaram criar fã-clubes
de outras séries de TV – como Arquivo X –, mas sem êxito.
Conforme Navarro se estabelecia no poder, procurava se cercar de novos
aliados fiéis e que questionassem pouco sua liderança.
Contudo,
o que realmente motivou o fim das Convenções Estelares foi a morte
precoce e surpreendente do organizador destes eventos, o Christiano
Nunes, com apenas 37 anos, em decorrência de uma cirurgia de redução
de estômago mal sucedida. Inclusive, ele mesmo esteve intimamente
envolvido nas negociações para trazer Nimoy ao país. O evento
aconteceu três meses após o seu falecimento.
Um
fã-clube dividido internamente e sem o seu manager, o homem que
fazia as coisas acontecerem, na prática levou a FEB a diminuir
drasticamente todo o conjunto de atividades que a mantinha. Oficialmente
ela não acabou, mas nos dias que correm é uma pálida sombra do que
já foi um dia.
Dispersão
de fãs
Já
antes da desaceleração do principal fã-clube da história de Jornada
nas Estrelas no Brasil, os fãs já se organizavam regionalmente
pelo país. E esta tendência cresceu com a paralização da FEB,
basicamente de duas maneiras: 1) criando pequenos grupos de fãs,
espalhados pelo interior do país; 2) mantendo comunicação por meio de
sites e listas de discussão na internet.
No
primeiro aspecto, existem alguns fã-clubes espalhados pelo país, ou
seja acabou a concentração e dependência de São Paulo. É difícil
precisar quantos estão ativos, mas os principais são o Organia Star
Trek Fã-Clube (de Belo Horizonte, estado de Minas Gerais), Star Trek
– Federação dos Planetas Unidos (de Curitiba, Paraná), Grupo
Avançado (de Fortaleza, Ceará), Base Estelar Campinas (de Campinas,
interior do estado de São Paulo), Solar 7 (de Santo André, também do
interior do estado de São Paulo).
Durante
a primeira metade dos anos 90 foram atuantes clubes como Star Trek
Center (de Jundiaí, interior do estado de São Paulo), Kobayashi Maru
(de Porto Alegre, Rio Grande do Sul) e Clube Estelar Star Trek (de Belo
Horizonte, Minas Gerais). Em São Paulo também foi criado um fã-clube
em fins dos anos 90, chamado Federação da Frota Estelar de São Paulo,
provavelmente um grupo dissidente da Frota Estelar Brasil.
A
maioria destes clubes possue endereço na internet e também mantém
listas de discussão, no qual os fãs mantém contato diário, como o do
site Trek Brasilis, um dos mais freqüentados (www.trekbrasilis.net).
Existe aproximadamente 60 home-pages criados por fãs brasileiros,
enfocando aspectos específicos da série, como raças alienígenas,
klingons, borgs, romulanos, vulcanos, naves espaciais, listas de
episódios, trilhas sonoras, personagens, versões específicas da
franquia no cinema e na TV, como, por exemplo, da Nova Geração
e Deep Space Nine, comercialização e troca de produtos etc.
E
outro motivo de redução das atividades da FEB, além dos já
apontados, é que a exibição das várias versões da franquia da
série passou a ser regularmente exibida em TVs a cabo e por vezes mesmo
em canais da TV aberta do país. Também foram lançados episódios das
várias versões em VHS e em 2005 chegou ao país o tão esperado DVD da
série clássica. Com tudo isso, o público que comparecia às reuniões
da FEB – e de outros fã-clubes – já estava diminuindo nos últimos
cinco anos, pelo menos. Pois as pessoas não precisavam ir a um evento
público para rever um episódio da série clássica ou ver um inédito
da sétima temporada de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração ou
ainda um de Voyager ou Enterprise. Viam os episódios em
suas próprias casas.
Desta
forma, se o movimento de fãs se dispersou em termos de clubes e
eventos, ele, porém, não está desaparecido. Sem dúvida, que o
momento atual é menor em termos de atividades concretas e influência
dos fãs em torno dos seus interesses com relação às várias séries
da franquia Jornada nas Estrelas. Mas eles mostraram sua força
apaixonada e ávida de consumo em maio de 2005 quando quase esgotaram em
apenas um mês, a primeira edição do DVD do primeiro ano da série
clássica. (14)
É
possível dizer que os trekkers estão vivos, mas vivendo um
momento de maior facilidade de acesso à sua paixão e com um meio de
comunicação mais individualista, como a internet. Talvez só mesmo se
o Capitão Kirk viesse ao país, poderíamos reunir novamente milhares
de fãs em um único local, mostrando publicamente – mais uma vez –
o quanto o brasileiro gosta de Jornada nas Estrelas.
Notas:
(1
) Este, um dos fãs mais antigos e ativos. Freqüentou todos os
fãs-clubes da série criados em São Paulo, ao longo de mais de vinte
anos. Ficou notabilizado por organizar várias listas de assinaturas de
fãs com o intuito de pressionar emissoras de TV a exibir as várias
versões da série, além do lançamento delas em vídeo VHS.
(2
) Por coincidência, este clube situado no extremo sul do Brasil também
tinha um forte vínculo com a astronomia. Só que aliava a paixão pela
observação do céu com a ficção científica em geral, especialmente
a literatura.
(3
) Inclusive com alguns nomes que se tornariam destaque no cenário da
ficção científica brasileira, como os escritores Jorge Luiz Calife e
Roberto de Sousa Causo.
(4)
É curioso notar que este ‘racha’ na SAST foi noticiado até na
grande imprensa de São Paulo, especificamente no Jornal da Tarde,
incluindo fotos de fãs pró e contra as mudanças.
(5)
Depois de se afastar do Trekker’s Club, ele cria uma nova associação
na cidade em que morava, São Bernardo do Campo, próxima à São Paulo.
Chamou-se Jornada nas Estrelas Brasil, em setembro de 1994.
Consta que o fã-clube durou alguns anos e congregou fãs residentes
apenas na cidade.
(6)
Criado pelo fã e pesquisador R.C. Nascimento em dezembro de 1985, o
Clube de Leitores de Ficção Científica é a principal organização
da comunidade de fãs brasileiros de ficção científica.
(7)
Já os primeiros fãs, aqueles do Star Trek Fã Club do Brasil,
pareceram alheios às disputas políticas. Continuaram seus encontros
semanais por mais alguns anos na mesma lanchonete e participaram de
forma eventual de encontros de fãs de novas entidades criadas
posteriormente.
(8)
Os integrantes fundadores da Frota Estelar Brasil estiveram presentes
– como espectadores – na fundação do Trekker’s Club. E lá
anunciaram que também iriam criar um novo fã-clube. Ainda sobre os
criadores da FEB, alguns deles chegaram a comparecer em algumas
reuniões no fast-food Wells, no começo dos anos 80. Mas não se
integraram com o grupo que já freqüentava o local.
(9)
Vale registrar que também existiram fanzines sobre a série não
ligados a fã-clube, ou seja, editados por fãs de maneira independente.
Entre os de maior destaque pode-se citar o Trekker Report – que
chegou a ser vendido em bancas de jornais de São Paulo e o Starfleet.
Tiveram pouca regularidade e não resistiram por muitos anos.
(10)
Por causa do êxito de seu trabalho de edição do Warp 9 e
coordenação desta Divisão de Engenharia, Ivo e Paolo foram convidados
pelas editora Aleph a traduzirem o livro Manual da Enterprise do
Engenheiro Montgomery Scott (Mr. Scott’s Guide to the
Enterprise), de Shane Johnson, em 1993. Esta editora também
publicou várias novelizações da série, durante a primeira metade da
década de 90.
(11)
Cristina Nastasi também foi a responsável pelas traduções dos pocket
books escritos pelos americanos J.A. Alexander e James Blish –
este um prestigiado autor de ficção científica –, que transformaram
os roteiros em contos. Saíram cinco volumes, pela editora paulista
Unicórnio Azul, entre os anos de 1995 e 1996. Cada volume tinha entre
cinco e seis episódios, além de artigos assinados por fãs, como a
própria Cristina, Susana Lopes de Alexandria – a responsável pelo Trekker
Cultura, da FEB –, Silvio Alexandre – o editor desta série de
livros – , e Anna Creusa Zacharias, autora de um romance baseado na
série, chamado A Abadia, de 1992.
(12)
Antes da visita de Walter Koenig, esteve presente em São Paulo nas
convenções da FEB, por pelo menos duas vezes, o produtor da Paramount
Pictures americana, Richard Arnold.
(13)
Uma curiosidade: em meados dos anos 80, o Brasil vivia um período
político de retorno ao regime democrático depois de duas décadas de
autoritarismo militar. Em uma das primeiras eleições da nova fase,
chegou a ser confeccionado por alguns fãs, um pequeno cartaz com o
rosto de Spock e o slogan: "Spock Para Presidente!".
(14)
Até o fim de 2005 ainda foram lançados o segundo e terceiro ano da
série clássica. Ambos também com boas vendas. E em 2006 chegou ao
mercado brasileiro temporadas da série Enterprise – a mais
recente da franquia – e de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração.
Referências
bibliográficas:
ANÔNIMO
(1968). "Lá em Cima Onde Mora a Aventura", Intervalo.
(É a primeira reportagem sobre Jornada nas Estrelas no Brasil,
anunciando sua estréia na TV.).
ASHERMAN,
Allan (1999). Jornada nas Estrelas Compendium – A Série Clássica.
Editora Sci-Fi Books.
BLISH,
James e ALEXANDER, J.A. (1995-1996). Star Trek – Episódios da
Série Clássica. Editora Unicórnio Azul.
BRANCO,
Marcello Simão (1992). "Os Fãs de Star Trek no Brasil", Somnium
58, CLFC, dezembro.
BRANCO,
Marcello Simão, ed. (1996). Megalon 42, novembro.
BRANCO,
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SHATNER,
William e KRESKI, Cris (1995). Jornada nas Estrelas – Memórias.
Editora Nova Fronteira.
TREKKER’S
CLUB (1989). Estatuto da associação, maio.
O
autor agradece a Roberto de Sousa Causo, que fez o convite para um
projeto editorial no qual este artigo foi inicialmente escrito. E a Ivo
Luiz Heinz, que fez uma leitura atenta da primeira versão.
Marcello
Simão Branco, jornalista e trekker por muitos anos, é um dos
editores do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica. E-mail
do autor: marcellobranco@ig.com.br.
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