Tendências e Desafios da
Ficção Científica Brasileira
Marcello Simão Branco

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Depois do fim da IAM é sabido que houve uma retração na quantidade de autores que escreveram ficção científica brasileira. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há o caso do jornalista Jorge Luiz Calife, o mais hard de nossos autores, possuidor de texto fluente e por vezes lírico, com descrições de cenários espaciais competentes e bom conhecimento científico.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Talvez o gaúcho Max Mallmann possa responder a minha indagação. Seus romances têm personalidade, fogem do lugar comum e tem um texto que só melhora a cada novo trabalho, como visto em Síndrome de Quimera (2000). 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Depois de tantos anos lendo ficção científica brasileira contemporânea é fácil identificar os temas e a maneira de escrever da maioria dos autores presentes. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

André Vianco escreve quilos de palavras em várias histórias de apelo comercial e boas vendas. E olha que ele até escreve bem.

 

 

 

 

O objetivo deste artigo é uma tentativa de aclarar algumas idéias que venho pensando há algum tempo sem grande interlocução, a respeito de algumas características e rumos da ficção científica brasileira atual. Desde já ressalto que não pretendo ser o dono da razão e nem pontificar sobre as eventuais virtudes ou defeitos deste ou daquele escritor. A intenção é dar o ponta-pé inicial para um possível debate – que reconheço desde já como pouco provável –, entre os produtores e artistas do gênero no Brasil. Em todo o caso, com um texto como este, corro o risco de ser malhado ou mal compreendido, como alguns poucos já foram no passado. Paciência. O importante é que o propósito crítico é honesto e construtivo.

Não vou abordar o conjunto de trabalhos que nos acompanham deste o início da Segunda Onda. Quero me fixar em algumas peculiaridades identificáveis no período posterior à extinção da revista Isaac Asimov Magazine (1990-1992), ou seja, nos últimos onze anos. Este marco é especialmente importante, menos pelo motivo didático, mas sim pela possível virada de algumas tendências sobre temas e estilos dentro do gênero no Brasil.

Depois do fim da IAM é sabido que houve uma retração na quantidade de autores que escreveram ficção científica brasileira. Se tomarmos o conjunto dos que escreviam regularmente nos fanzines antes e aqueles que continuaram praticando depois, veremos que alguns bons autores abandonaram a pena, ou tornaram-se autores por demais intermitentes para prosseguir com uma carreira, mesmo que um fiapo dela. É bem verdade que parte daquela relativa grande quantidade de jovens autores que praticavam ficção nos fanzines, deixou o gênero por motivos outros também, mas o choque com o fim da revista se fez sentir.

Pois até uma quantidade razoável de autores surgidos com o Concurso Jerônymo Monteiro – promovido pela revista –, foram sumariamente perdidos. De exemplo prático tenho para citar emblematicamente Cid Fernandez que foi um dos finalistas. Quantos outros participantes, com colocação intermediária, mas com bom potencial, não devem ter sido desperdiçados?

Mas deixemos as especulações e nos concentremos em realidades concretas. A começar pelo próprio Fernandez, que depois de publicar sua noveleta "Lost" (1991) na IAM, foi visto apenas mais duas ou três vezes em uma década. Este é um exemplo daquilo que chamei acima de "autor intermitente" – ou "autor de fim de semana", na ferina observação que outro crítico fez recentemente. E olha que não estou sendo rigoroso, pois levo em conta o exercício e publicação nos fanzines, depois do fim da revista. E nem nesse critério, Fernandez consegue algo mais do que a pálida intermitência.

Alguns outros publicaram livros e depois pararam, como José dos Santos Fernandes e sua coletânea Do Outro Lado do Tempo (1991), que ficou sendo uma boa promessa a se desenvolver. Outro foi o paulista Henrique Flory, com sua boa coletânea A Pedra que Canta (1992), e seu romance passável, Projeto Evolução (1993). E o que falar do talentoso e performático Ivan Carlos Regina? Para todos os efeitos, ficou só em seu O Fruto Maduro da Civilização (1993), mesmo lembrando que há três anos ganhou o Prêmio Argos com o conto "Sete Vezes Besta, Sete Vezes Homem" (1999), além de publicar alguns contos, inclusive na antologia Outras Copas, Outros Mundos (1998). O que aconteceu com eles? Se alguns destes três autores – e outros que me desculpem a omissão – continuam escrevendo, guardam muito bem seus escritos em suas gavetas, pois nem nos fanzines ou nos websites têm aparecido.

Também temos o caso ímpar de Braulio Tavares. Ele é o melhor autor surgido nesta Segunda Onda, dono também da melhor obra, a coletânea dupla A Espinha Dorsal da Memória/Mundo Fantasmo (1996). Primeiro se afastou da ficção científica, indo escrever mais fantasia de tons ibero-medievais e borgeanos. E depois, simplesmente, não escreveu mais nada em termos de ficção, mesmo possuindo um certo prestígio entre editoras e a crítica mainstream. Ah, sim, isso pode mudar: Braulio tem um romance de ficção científica near future inédito, com alguma chance de ser publicado em 2004. Tomara.

Poderia me deter também em Ivanir Calado, mas este, um romancista dos mais competentes, tem na ficção científica um gênero extemporâneo, embora ainda presente vez por outra. Além do fato mais importante de que é – assim como o próprio Braulio –, um autor diluído em diversas atividades artísticas, sendo a literária, apenas uma delas.

Afinal, é possível que o projeto artístico de alguns deles tenha se encerrado. Mas prefiro acreditar que foram desestimulados pela falta de perspectiva profissional, melhor dizendo, pela falta de revista e de editora que publicasse ficção científica. Editora também, pois o fim dos anos 80 e início dos 90 viu ressurgir a coleção de ficção científica do editor Gumercindo Rocha Dorea. Apesar da tentativa idealista, acabou naufragando na falta de distribuição dos seus livros, além da falta de interesse dos seus leitores potenciais. Mas apontar a descontinuidade dos livros de ficção científica publicados pela GRD, como uma das vertentes da falta de estímulo para os autores brasileiros escreverem ficção científica é exagerar na dose. Afinal, ao contrário da IAM, a repercussão dos livros do lendário editor, era quase tão mínima como os fanzines. E a razão disso é a falta de distribuição já aventada, a pequena tiragem e a falta de divulgação dos livros nos jornais e revistas da grande imprensa.

Para não esquecer dos autores da chamada Primeira Onda ("Geração GRD"), o único mencionável é André Carneiro. Poeta de prestígio, reapareceu na ficção científica brasileira como cronista nos primeiros tempos do fanzine Somnium e depois tentou vôos ousados, passando de um contista excelente, de rara sensibilidade e sutileza crítica, para um romancista de enredo confuso e uma prosa estéril, asséptica. Sua coletânea A Máquina de Hyerônimus e Outras Histórias (1997), só confirma que ele é de fato, ao menos para a ficção científica, um dos nossos mais criativos e instigantes prosadores da forma curta.

Já os autores brasileiros que surgiram no início dos anos 80 e continuaram a escrever depois do fim da IAM, publicaram quase que exclusivamente nos fanzines – que coincidência ou não, também diminuíram em títulos, regularidade e tiragem –, pelo menos até fins dos anos 90, quando a editora Ano-Luz apareceu como uma última esperança, por causa da quase falência de publicação de ficção científica em nosso país. Depois de cinco anos de existência e quatro antologias temáticas publicadas, o efeito prático em termos de ganho de leitores é quase nulo, pelos mesmos problemas enfrentados antes pela GRD. Outro que tentou trilhar o caminho da edição com resultados igualmente pífios, foi Roberto de Sousa Causo, com uma boa antologia em uma editora também pequena, Estranhos Contatos (Caioá, 1998), edição de livrinhos em bancas e a revista Quark (2001).

De qualquer forma, se as revistas mostraram-se inviáveis, as antologias, pelo menos, estabelecem uma tradição que marca o gênero no Brasil, além de especializar certos temas a um nível inédito até mesmo no cenário internacional – como na antologia Outras Copas, Outros Mundos –, o que não deixa de ser um fato distintivo da ficção científica feita em nosso país.

Mas não é propriamente sobre a inexistência de um mercado editorial e seus efeitos diretos, que este artigo quer se centrar. E sim naquilo que os autores brasileiros de ficção científica vem escrevendo nestes últimos anos – em parte como efeito da ausência deste mercado editorial.

Assim, o que temos? Inquietação existencial e experimentação formal, ou influências de tendências estrangeiras mescladas com elementos de ‘brasilidade’, sem grande apuro estilístico? Examinemos as duas possíveis situações.

Depois de tantos anos lendo ficção científica brasileira contemporânea é fácil identificar os temas e a maneira de escrever da maioria dos autores presentes. Cada um ao seu modo tem buscado desenvolver uma voz própria, com resultados mais ou menos competentes. A este fato óbvio, acrescente-se que o finado Movimento Antropofágico e as antologias temáticas que dela derivaram do ponto de vista ideológico, meio que direcionaram o que boa parte dos autores escreveu em termos de ficção científica e fantasia. Isso é inevitável, primeiro para acabar de vez com a tal "Síndrome do Capitão Barbosa" e em segundo lugar para aproveitar a nesga de mercado que restou: ou se aceita escrever sobre o que os editores pedem, ou não publicam. (Ou ficam restritos aos fanzines, como foi o caso de alguns.)

Dentro deste contexto, a ficção científica brasileira vem perdendo originalidade e um certo sentido do que chamo tanto de ‘inquietação existencial’, como de ‘investigação social’. A primeira que diga de forma mais intimista que visões de mundo um autor de ficção científica poderia projetar e especular. E a segunda, que nos levasse mais longe, além do senso comum, sobre as conseqüências futuras, sociais e políticas, da realidade brasileira.

Mas, ao invés dos autores buscarem estas possíveis linhas temáticas mais adultas e provocadoras, eles têm (em boa parte das vezes ) se infantilizado. Não que isso seja necessariamente ruim, mas o fato é que nem estes trabalhos mais pulps conseguem atingir – em sua maioria – uma qualidade um pouco mais diferenciada do ponto de vista literário. São leves e divertem, mas não vão muito além de um entretenimento de qualidade razoável.

Assim, temos autores que escrevem dentro de universos ficcionais por eles criados. Outros se exercitam em universos compartilhados. Alguns outros ainda se remetem a fórmulas e influências de autores do passado. E mais alguns têm se repetido tematicamente por anos seguidos com visível perda de vigor criativo. E a todo este quadro de pouca originalidade, soma-se uma parca experimentação de estilo e apuro do texto.

Para tornar mais claro o argumento, farei um brevíssimo comentário sobre alguns dos autores mais representativos do período que estou analisando. Deixo claro, desde já, que as nuances e detalhes da obra ou do estilo deste ou daquele autor pode sofrer alguma perda, visto que toda generalização aumenta o risco de erro.

Comecemos por Gerson Lodi-Ribeiro e seu universo alternativo de negros palmarinos libertos e vampiros ‘científicos’. Um autor que se desenvolveu com competência ao longo dos anos, superando em sua maior parte uma narração excessivamente informativa, deixando que os personagens tenham mais identidade e voz própria. Suas histórias alternativas do "Ciclo de Palmares" são interessantes e bem contadas, mas já se fazem por repetir em demasia. A contribuição de Gerson, com a introdução sistemática da história alternativa em nossa ficção científica, vai além de sua ficção, com seus artigos publicados no Megalon e uma antologia temática, Phantastica Brasiliana (2000). E a seguir nesta toada, talvez a longo prazo, sua contribuição ao subgênero da história alternativa no Brasil, seja mais efetiva como crítico e editor, do que como ficcionista.

Continuemos com Roberto de Sousa Causo, e suas histórias de ficção científica de teor bélico, com forte componente ético e humanista, que já produziu textos instigantes como "Patrulha Para o Desconhecido" (1991), mas que não tem conseguido avançar para um desdobramento diferente – ou transcendente ao tema em si. Aventuras mais recentes como "O Salvador da Pátria" e Terra Verde (ambas de 2000), que se passam na selva amazônica, são um esforço interessante e com bons resultados, mas continuam na mesma chave de composição de enredo das histórias de teor bélico. O problema de Causo não é com seu texto fluente – com melhora visível ao longo dos anos –, nem com a boa carga dramática que imprime, nem com personagens críveis, mas com algumas dificuldades em se libertar das amarras temáticas que construiu. Para quem já leu várias dessas suas histórias, o efeito de uma nova é pequeno, pois há pouca variação de enredo entre uma história e outra, além das características dos personagens também serem semelhantes na maior parte das vezes.

É bom frisar que ambos não tem se limitado historicamente a estas temáticas mais recorrentes. Gerson, vez por outra, ainda entra na seara de histórias com abordagem mais hard – recentemente também por meio de seu pseudônimo Daniel Alvarez. E Causo, além de não se limitar tanto ao tema da ficção científica militar, tem escrito saborosas dark fantasies, talvez o melhor caminho para sua prosa de bom conteúdo realista e percepção apurada das opções ambíguas das atitudes humanas, potencializadas num ambiente fantástico. E ademais, Causo, assim como Gerson, se impôs

à tarefa de crítico e seu trabalho de pesquisa histórica, teoria e análise comparada, vista no recém saído livro Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875-1950 (2003), se reveste de uma importância a par com sua ficção – leia uma resenha deste livro nesta edição. Mas tanto o carioca Gerson, como o paulista Causo, insisto, tem em suas temáticas recorrentes uma busca mais permanente e ambiciosa, ainda que tenham obtido à esta altura, resultados menos criativos do que se supunha quando publicaram suas primeiras histórias em seus backgrounds favoritos

Falemos de Miguel Carqueija, um autor com uma carreira já longa, que abordou vários temas da ficção científica, com um bom ritmo para aventuras e diálogos de personagens. De uns anos para cá, contudo, tem se repetido em alguns assuntos mais específicos, como heroínas, fanfics e pastiches lovecraftianos. E permeado por uma visão de mundo ingênua, conservadora e, por vezes, inverossímil, como visto na recém lançada noveleta A Esfinge Negra (2003). Carqueija tem constância narrativa, mas ela não resultou em melhora qualitativa na maior parte de suas histórias.

E o jundiaiense Carlos Orsi Martinho tem dedicado parte de seu tempo a escrever fanfics e contos para universos compartilhados, quando poderia escrever – e já mostrou que pode –, histórias mais originais e surpreendentes. Isso depois de uma longa primeira fase calcada no universo de H.P. Lovecraft que o autor, felizmente, parece que abandonou – ainda que tenha produzido alguns contos muito bons, para além da mera homenagem. Arrisco a dizer que sua noveleta "Aprendizado" (1992) é um dos poucos clássicos genuínos da FCB em toda a Segunda Onda – e é um texto original dentro de sua obra. Talento e criatividade ele tem de sobra. Ainda falta desabrochar uma voz que seja só sua.

Há o caso do jornalista Jorge Luiz Calife, o mais hard de nossos autores, possuidor de texto fluente e por vezes lírico, com descrições de cenários espaciais competentes e bom conhecimento científico. Mas escreve a única ficção científica que sabe, a do seu universo de "Padrões de Contato". O que era uma novidade hard superinteressante há quase vinte anos, acabou virando uma imensa novela que nunca mais termina, só variando sobre o mesmo tema, cada vez com menos brilho, como visto em sua coletânea As Sereias do Espaço (2001).

Mas tivemos sim uma novidade no cenário da FCB: Octavio Aragão criando a "Intempol" (1998), de início uma idéia simpática, mas que tem tido também o efeito de aglutinar autores das mais variadas tendências para escrever quase que só isso. Aragão certamente não imaginou esta decorrência ao criar as peripécias de sua polícia temporal – que já renderam alguns pares de boas aventuras. A junção dos autores que nela tem se exercitado, dá-se, creio, mais pela possibilidade de publicação e alguma visibilidade por meio da internet, do que por uma preferência temática per si de cada colaborador.

Há também três outros autores que considero talentosos: Fábio Fernandes, Ataíde Tartari e Simone Saueressig. Fábio é muito interessante, com boa prosa, soluções animadoras de estilo, idéias perturbadoras e personagens densos, paranóicos. É uma pena que sua coletânea Interface com o Vampiro (2000) seja tão pouco conhecida. Recentemente, porém, também escreveu um fanfic – "A Paixão Segundo S.H.", publicada na mais recente antologia temática da FCB, Como Era Gostosa a Minha Alienígena! (2003) –, e tem escrito aventuras para a "Intempol". Ainda que elas sejam – ao lado das escritas por Octavio Aragão –, as melhores que este universo compartilhado mostrou até o momento.

Já o paulistano Ataíde Tartari, é dono de um texto caprichado, no qual equilibra com elegância a estrutura formal, com uma agradável coloquialidade. Mas, ao dispender energias em escrever em inglês, talvez deixe de lado a possibilidade mais concreta de se tornar um escritor de ficção científica e fantasia importante no Brasil.

Quanto à autora gaúcha, ela segue seu caminho de forma independente do centro do fandom. Alheia, continua a produzir fantasia e horror de boa qualidade, especialmente por seu texto burilado e fluente. E olha só: escreve histórias infanto-juvenis sim. Mas das boas, talvez porque esta praia realmente seja decorrência de sua expressão artística interior e não mera estratégia para facilitar uma publicação.

Pois esse é o ponto: não consigo observar e sentir na maioria dos autores citados – e em outros –, esta voz que vem de dentro. Uma certa inquietação existencial que justifique a arte que o sujeito está escrevendo. No mais das vezes, há o exercício literário como decorrência de técnicas e metodologias para uma "história bem contada". Mas o que mais? Sinto falta de uma certa alma interior em cada um. Uma ficção científica que seja bem escrita sim, mas também que se sujeite a ser tematicamente e estilisticamente rejeitada ou ‘estranhada’.

Talvez o gaúcho Max Mallmann possa responder a minha indagação. Seus romances têm personalidade, fogem do lugar comum e tem um texto que só melhora a cada novo trabalho, como visto em Síndrome de Quimera (2000). Mallmann, contudo, por não se afeiçoar aos jargões da ficção científica, ganha certa liberdade experimental, mas perde dentro do desenvolvimento de uma temática específica do gênero. Mas se a ficção científica fica mais rarefeita, que pelo menos vá à diante no que se propõe, pois sua literatura é das poucas que me passam uma percepção da tal inquietação existencial que cobrei linhas acima. Observo aqui que ainda não li seu novo romance Zigurate.

E aqui chegamos a uma situação curiosa: se não existe mercado não seria mais fácil o desenvolvimento de uma temática e de um estilo mais pessoal e independente? Mas o que temos? Autores de ficção científica no Brasil, em ocasiões recorrentes, seguindo tendências de temas e estilos de mercados mais desenvolvidos. Mas espere: a esta altura mais desenvolvidos do ponto de vista estrutural e econômico. Não necessariamente artístico, o que eles certamente vêm perdendo há alguns anos.

Afinal, o que é a ficção científica americana hoje em boa parte? Livros de séries intermináveis, universos compartilhados, fanfics e tie-ins. Tá certo que histórias seriadas e universos ficcionais esticados não uma novidade recente. Inclusive, há séries magistrais, marcantes na história da FC&F com este perfil de história seriada. Só para ilustrar, temos histórias do futuro, como as de Olaf Stapledon e Robert A. Heinlein, e séries como "Terramar", de Ursula K. Le Guin e "O Livro do Novo Sol", de Gene Wolfe, entre outras. Mas a situação que grassa há mais ou menos 15 anos tornou-se praticamente majoritária. Minoria passou a ser o caso de um escritor que se estabeleça comercialmente escrevendo histórias únicas. Sem que precise continuar a escrevê-la logo depois e por muitos anos.

Autores com perfil mais independente, ecletismo temático e estilo menos convencional, têm dificuldades em publicar não só nos EUA, mas também no Reino Unido. E não preciso citar exemplos muito recentes: talentos britânicos como Keith Roberts e John Brunner, passaram dificuldades financeiras pouco antes de morrerem – em meados dos anos 90 –, pois suas histórias não se "adequavam" ao mercado editorial anglo-americano. Pois o que este mercado vem seguidamente pedindo? Histórias leves e descartáveis, com narrativas visualmente ‘cinematográficas’, para facilitar uma possível adaptação para o cinema, e em formatos de seqüências, sagas, prequels, universos compartilhados, séries intermináveis, novelizações de sucessos do cinema, quadrinhos e TV. Nunca foi tão fácil identificar os 90% de lixo da Lei de Sturgeon.

As idéias instigantes e socialmente contestadoras, a busca por histórias com um sense of wonder mais original, o aprimoramento da prosa e da forma e o desenvolvimento de enredos e personagens diminuiram, numa ficção científica mais afeita a uma autêntica linha de montagem de séries e tie-ins. Fica cada vez mais difícil vaticinar futuros clássicos do gênero a partir desta realidade. Exagero? Ora, será que clássicos absolutos dos anos 50 e 60 como, por exemplo, O Homem Demolido, de Alfred Bester, Mais que Humano, de Theodore Sturgeon e O Senhor da Luz, de Roger Zelazny, seriam publicados com a mesma facilidade hoje? Tenho sérias dúvidas. Ou sendo publicados, tornariam seus autores vítimas de intermináveis e dispensáveis continuações.

E o que observamos em nossa minúscula ficção científica? Guardadas as devidas proporções, tendências potencialmente comerciais e de superficialização de enredos muito semelhantes. A ficção científica brasileira precisa ser mais arrojada, menos comportada. A impressão que me passa é que cada autor se especializou numa temática e/ou num maneirismo confortável e bem-recebido por seus poucos leitores, e se acomodou dentro desta fórmula. Mas este tipo de situação não nos deveria dizer respeito, pois o mercado editorial é refratário à ficção científica escrita por brasileiros. Contudo, este mesmo mercado editorial segue as tendências econômicas internacionais e a praga de tie-ins, romances seriados e infanto-juvenilização da literatura fantástica já assola as livrarias. As duas correntes mais fortes dos últimos anos têm sido a transformação da fantasia adolescente num fenômeno de vendas, catapultada pela chegada ao cinema da trilogia O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, e principalmente pela série de livros escrita por J.K. Rowling e seu bruxinho Harry Potter – também adaptados para o cinema, com uma bilheteria impressionante. A outra é a midiatização literária, com as editoras só publicando livros de ficção científica, se estes tiverem antes sido levados às telas de cinema. Sem esquecer que este fenômeno já fora antecipado com tie-ins de séries de TV.

Colorário deste fenômeno mercadológico é o comportamento de alguns escritores brasileiros de horror e fantasia. André Vianco escreve quilos de palavras em várias histórias de apelo comercial e boas vendas. E olha que ele até escreve bem. Seu romance de vampiros Os Sete (2001), é competente. Mas quando uma autora de texto caprichado como Martha Argel, originada no seio do fandom de ficção científica, anuncia – numa entrevista ao fanzine Scarium no. 5 –, que seu romance, também de vampiros, Relações de Sangue (2002), terá uma seqüência com novas aventuras da personagem protagonista, vê-se o desperdício, pois pouco resta a esperar em termos de uma literatura com maior ambição artística, e sim com um entretenimento fácil. Não necessariamente ruim, mas que apresenta uma proposta literária limitada e que segue a tendência comercial perniciosa que venho apontando.

Em todo caso, minha preocupação central é com a FCB centrada numa espécie de projeto artístico praticada pelos autores ideologicamente vinculados às tradições do gênero. Para estes, a inexistência de mercado editorial tem, como conseqüências, uma falta de competição entre os autores, bem como de crítica e edição profissionalizada. Há que existir incentivo e pressão para se produzir melhor. Há que se acostumar com críticas construtivas e que não façam concessões à mediocridade. Mas em nosso mundinho de fanzines a competição quase não existe e qualquer crítica é exageradamente potencializada, caindo para o amadorismo da ofensa pessoal com muita freqüência.

Mesmo com estes problemas, com o grupo de autores que temos – os citados e outros com potencial semelhante –, é possível criar, experimentar, ousar, recomeçar. Inventar mundos, histórias e personagens mais livres e, senão originais, pelo menos mais próprios de cada criador.

Uma reflexão sobre as mazelas históricas da realidade brasileira já seria um começo promissor, numa linha que nomeei de ficção científica ‘socialmente investigativa’. Pois fala-se em busca de ‘brasilidade’ – e de fato, ela está incorporada dentro das características temáticas de cada autor –, mas é preciso ir além dos cenários, das paisagens e de nomes de personagens. Seria interessante a adoção de uma postura mais especulativa do ponto de vista temático e, tanto quanto possível ao talento de cada um, inovador do ponto de vista formal.

Pois acredito que é desta forma que os autores brasileiros possam, eventualmente, chamar a atenção para além das fronteiras das antologias temáticas e dos fanzines de tiragens e repercussão restritas apenas ao fandom, logrando algum prestígio da crítica mainstream e mais importante, por que não, de um público leitor numa escala de alguns milhares, que são os que lêem no Brasil.

Marcello Simão Branco é jornalista e editor. Publica o fanzine de ficção científica e horror Megalon desde 1988.
Este artigo foi publicado originalmente no fanzine Megalon, número 70, dezembro de 2003.

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