|
Marco
A. M. Bourguignon
Foi
com o paulista Jeronymo Monteiro (1908-1970) que a
"ficção científica brasileira" passou a existir como universo
literário à parte da literatura, criando regras e métodos próprios, além de
formar um público específico. Em 1947, Monteiro publicou, "Três Meses no
Século 81" e, em 1948, "A Cidade Perdida". Antes
disso, até o final da década de 30, não existia no Brasil um
movimento literário em prol da ficção científica, envolvendo escritores e
leitores. Antes havia surgido alguns textos casuais de autores da literatura, como: Gastão
Cruls, Menotti del Picchia, Érico Veríssimo, Adazira Bittencourt e Monteiro
Lobato. Mas ainda não havia uma tradição literária em ficção científica. Eram
apenas ambientados em universos remotos habitados por seres fantásticos além,
é claro, de ambientes utópicos e de aventuras.
Jeronymo
Monteiro travava uma batalha em várias frentes da literatura popular: seriados
para rádios, novelas policiais e histórias infantis. Em 1964, fundou a "Sociedade
Brasileira de Ficção Científica" e nos últimos anos de sua vida
foi editor do "Magazine de Ficção Científica" (edição brasileira da
conceituada revista estadunidense "The Magazine of Fantasy and Science
Fiction"). Seu primeiro sucesso foi "Aventura de Dick Peter",
uma série de livros baseados em um dos seus seriados de rádio, eram histórias
sobre um detetive
novaiorquino. A partir de 1947, Monteiro publicou uma série de romances de FC,
editou uma antologia: "O Conto Fantástico", Civilização
Brasileira, 1959 e manteve por muito tempo uma coluna crítica sobre
Ficção Científica no
jornal "A Tribuna", de Santos (SP).
Berílio
Neves (1901-1974) também foi um dos percussores da Ficção Científica na
década de 30. Neves escreveu historietas futuristas de grande sucesso
de público e crítica. Foram mais de quarenta contos. Seu primeiro livro foi
"No país das fadas" (1930). Seus contos foram reunidos em dois
volumes: "A Costela de Adão"(1932) e "Século XXI"(1934).
No
início da década de 60, houve um surto brasileiro de literatura de ficção
científica. Essa fase áurea foi provocada pelo entusiasmo de um grupo de autores e
editores que, como Jeronymo Monteiro, tinham consciência de um grande mercado literário de revistas baratas nos EUA (os "pulp
magazines") e que, aos poucos, foram abrindo lugar para revistas mais
sofisticadas.
No Brasil, os editores Gumercindo Rocha Dórea,
na Editora GRD, e Álvaro Malheiros, na Edart, lançaram três antologias de Ficção
Científica que reuniram nomes consagrados da literatura
nacional ao lado de novos autores. Um marco importante para a literatura de
ficção científica. Depois dessas antologias seguiram-se vários romances e
coletâneas de contos. Podemos citar autores como: André
Carneiro, Rubens Teixeira Scavone,
Dinah Silveira de Queiroz, Nilson Martello, Levy Menezes, Guido Wilmar Sassi.
Esses autores passaram a ser conhecidos como "geração GRD" e demonstravam
consciência de pertencerem a um movimento de qualidade literária.
André
Carneiro foi o autor do primeiro livro de reflexão crítica sobre a ficção
científica: "Introdução ao Estudo da Science Fiction" (São
Paulo, Imprensa Oficial do Estado, 1968, 142 p.). Carneiro escreveu um balanço
sobre o gênero, desde a sua origem até as obras dos autores dos anos 60. Abordando
não só a literatura como o cinema. Mostrou também a importância do mercado
editorial das revistas estadunidenses.
Carneiro
não foi o primeiro a fazer ensaios e artigos críticos sobre a ficção
científica no Brasil. Fausto Cunha publicou na imprensa artigos e ensaios sobre a ficção
científica, que não foram reunidos em livros, englobando três décadas. Em "A Luta
Literária" (Rio de Janeiro, Lidador, 1964, 212 p.), escreveu sobre
Jorge Luis Borges, H.G. Wells, Karel Capek e H. P. Lovecraft.
Jorge
Luiz Calife surgiu com um dos primeiros trabalhos de "Ficção Científica
Hard", a trilogia "Padrões de Contato". Até então,
havia na literatura de ficção científica uma mistura de elementos
fantásticos. Calife trabalhou nos aspectos e encantamentos dos jargões
científicos, traduzindo-os para o gênero no cenário brasileiro.
Na
década de 80, duas novidades agitaram a produção da Ficção Científica
brasileira; o aparecimento do "CLFC"' (Clube de Leitores de Ficção
Científica), fundado por Roberto César do Nascimento (R.C.
Nascimento, 1985), em São Paulo, e de diversos grupos de fãs, denominado
"fandom", nos moldes estadunidenses e europeus. Esse
movimento de fãs foi o pilar para enraizar a presença do gênero em suas
diversas manifestações no cenário brasileiro, editando revistas, livros e
fanzines, além de criarem prêmios e concursos (Nova, Argos, entre outros).
Com
o surgimento da Revista Isaac Asimov Magazine, temos uma nova geração
contemporânea, que entra pelos anos 90, chamada de "Geração IAM".
Podemos citar o escritor Bráulio Tavares como um dos mais significativos desta
geração, apesar de ter começado a escrever muito antes desta publicação.
No
final da
década de 90 houve um movimento muito intenso em direção à nova mídia que
surgia: a Internet, ou mais precisamente, a parte gráfica da rede chamada de "World
Wide Web", fazendo
surgir os chamados "webzines", como:
"FC Brasil"
em - "/www.elogica.com.br/users/carloss/",
"FC On Line" - "www.fconline.net/",
"Matrix" - "www.ficcao.matrix.com.br"/,
"Frota
On Line" - "www.geocities.com/SoHo/Cafe/6558/",
"Banana Atômica" - "www.geocities.com/Area51/Corridor/5694"
"Odisséia" - "www.angelfire.com/sc/odisseia/"
Muitos dos fanzines
tradicionais e revistas migraram para a nova mídia, como exemplo o premiado
"Magalom", mas que foram aos poucos desaparecendo e deixando de
serem atualizados (o "Megalom" permaneceu apenas como "fanzine").
Como muitas inovações nesse novo meio, não ultrapassaram o "boom"
da Internet.
Já
no início do novo século, com o surgimento dos "blogs", os zines na
Internet ganharam um novo impulso, mas a grande maioria apenas para abrigar
obras de autores
e poucos tentando abranger a Ficção Científica no geral.
As
listas de discussões, os famosos "e-groups", também ganharam um
impulso importante para reunirem leitores e autores, facilitando os encontros, e
diminuindo as distâncias geográficas. As listas tornaram-se importantes
canais de comunicação para os clubes e diversos projetos literários, como:
CLFC
- http://br.groups.yahoo.com/group/lista-do-clfc/
Esta
é uma lista patrocinada pelo Clube de Leitores de Ficçao Cientifica. Aqui se
discute a ficção fantástica em geral.
Oficina
de Escritores - http://br.groups.yahoo.com/group/listaoficina/
O
objetivo desta lista é aprimorar a habilidade de escrever contos de
Fantasia, Ficção Científica, Mistério e Terror, através do intercâmbio de
contos e críticas.
Slev
- http://br.groups.yahoo.com/group/slev3/
Mantido
por Rogério Amaral de Vasconcellos tem o objetivo de criarem a arte fantástica
baseado no universo de Histórias Alternativas.
Intempol
- http://br.groups.yahoo.com/group/intempol2/
Lista
de ficção científica baseada em viagens temporais.
Simetria
- http://groups.yahoo.com/group/Simetria/
Lista
mantida pela Associação Portuguesa de Ficção Científica e Fantástico. Discute-se Ficção Científica e Fantástico, além de Projetos, Idéias e
atividades da Simetria
Projetos
como Intempol (gerenciado por Octávio Aragão) e Slev (gerenciado por Rogério
Amaral de Vasconcellos) traz uma nova luz à Ficção Científica Brasileira.
A
Intempol se
iniciou com uma antologia editada pela "Ano Luz" em 2000 e
cresceu gerindo HQs, RPGs e diversos outros contos sobre viagens temporais. Não
podemos negar a grande contribuição que o projeto trouxe a Ficção
Científica contemporânea. "Uma patrulha do tempo com grandes doses do
jeito brasileiro, caça os viajantes do tempo que tentam alterar a história,
mas nem sempre as coisas saem como planejado..."
A
Slev foi iniciada na Oficina de Escritores
e depois tornou-se independente, criando um site e uma lista própria para
abrigar todo o projeto (www.slev.cbj.net).
A Slev também geriu uma antologia, "Idade da Decadência: Inferno em
Khallah" pela "Editora Mitsukai" em 2001. Em sua
versão 3 está trabalhando num projeto de "História
Alternativa". A Slev funciona como um jogo de RPG Literário,
onde cada autor constrói seus contos baseados em um universo já pré-determinado e
seguem regras rígidas para a sua elaboração. Os contos são
julgados pelos participantes e classificados. Ganha o autor que mais pontuar.
Bibliografia
consultada:
CAUSO,
Roberto de Sousa. Berílio Neves e a Mulher Obsoleta, in: Papêra Uirandê
Especial 8, novembro e dezembro de 2002.
MEDEIROS,
Ruby Felisbino. Índice de contos de ficção científica e fantástico. Porto
Alegre, Laboratório-Escola de Ficção científica Robert A. Heinlein, 1999.
NASCIMENTO,
R. C. A coleção argonauta. São Paulo, Scortecci, 1985.
SODRÉ,
Muniz. A ficção do tempo. Petrópolis, Vozes, 1972.
TAVARES,
Braulio. Fantastic, fantasy and fiction literature catalog. Rio de Janeiro,
Biblioteca Nacional, 1992.
|