Reflexões filosóficas acerca da Pluralidade dos Mundos Habitados: esboço de uma trajetória.
Edgar Indalecio Smaniotto*

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Todas as épocas e civilizações tiveram a sua cosmologia, a narrativa de como começou o universo e para onde ele vai. Que lugar ocupamos no cosmos e, questão crucial, estaremos sozinhos na vastidão dos espaços estelares e galácticos?

Quando o homem se meteu pela primeira vez a observar as estrelas, provavelmente na fase paleolítica final do seu desenvolvimento, era natural que visse no universo uma porção de terra chata, rodeada pelo mar e coberta por um céu em cúpula transparente, onde se achavam o Sol, a Lua e as estrelas. Que o Sol e a Lua são dotados de movimento vêem-no até os olhos mais distraídos, mas só bastante mais tarde o homem notaria que certas "estrelas" - os planetas do sistema solar - se moviam também nos céus, de fundo ao encontro das estrelas fixas.

Os primeiros astrônomos de que temos conhecimento certo foram os da Mesopotâmia, da Índia e da China, sendo eles quem começaram a registar, sistematicamente, os fenômenos celestes, embora as estreitas ligações entre os movimentos do Sol e da Lua e as datas indicadas para as semeaduras e colheitas devam ter constituído o interesse primordial para os primeiros agricultores do começo do período Neolítico (c. de 10 000 anos a.C.).

Este interesse com relação ao firmamento fez com que os homens  desenvolvessem sistemas explicativos sobre o surgimento do cosmo, do homem, sua relação com o firmamento e  até  mesmo a  possibilidade  de  existir  vida extraterrestre  em  algumas  daquelas  estrelas; cientistas  e  filósofos  antigos   defenderam  abertamente  suas  idéias e  pesquisas  sobre  a  existência  de  vida  extraterrestre  e  a  pluralidade  dos  mundos  habitados, foram os precursores  da  astrobiologia  e também da  ficção  científica  contemporânea,  assim  meu  propósito  neste  artigo  é  resgatar  as  reflexões destes pensadores,  estas  começam  na  Grécia Antiga e  enceram-se  no  século  XIX.

Foram os gregos, a civilização que esteve na base da nossa, que tentaram explicar os fenômenos astronômicos em  termos físicos  pela  primeira  vez. Muitos anteciparam-se para a sua época. Sabemos, por exemplo, que Aristarco de Samos (c. 320 -250 a.C.) antecipou em mais de 1700 anos o sistema heliocêntrico de Copérnico, postulando que a Terra era apenas um planeta que, tal como os outros, girava em volta do Sol e que as estrelas estavam a distâncias enormes. Um seu contemporâneo, da mesma cidade, Epicuro, escreveu que "talvez possam existir outros locais possíveis de vida, para além da Terra", devendo ser considerado justamente o precursor da moderna astrobiologia.

A astrobiologia é com efeito o estudo científico das possibilidades de vida no universo, seu passado, presente e futuro. Começa com a investigação da vida na Terra, o único local até ao momento onde sabermos que ela existe, e estende-se aos outros planetas e corpos do sistema solar, espaço interplanetário, outros sistemas planetários, sistemas galácticos e universo em geral. Os seus limites espaciais envolvem tudo o que é observável, e temporalmente podemos dizer que os seus horizontes se prolongam aos primórdios do universo, logo após o "big bang", quando as primeiras nucleossínteses de elementos se deram.

Mas voltando aos gregos, foi Leucipo (século  5 ª.C), pai  da  teoria  atômica, que ao considerar que  a  existência de  um  número  infinito  de  átomos  e  de  combinações  entre  eles  levaria   a  um número infinitos  de  mundos  e  seres  como  o  nosso,  que  criou  as  bases  científicas  em  que se  sustentaram  as  teorias  do  cosmo  e  da astrobiologia  de  Aristarco  e  Epicuro.

Entretanto com o advento do cristianismo e da perseguição implacável a  todos os pensadores que ousassem propor qualquer teoria que não estivesse de  acordo com o dogmas da Igreja Católica, as ciências astronômicas e hipóteses astrobiologicas ficaram estagnadas.

Durante o renascimento, a existência de outros mundos habitados passou a ser admitida por vários pensadores e cientistas. Entre eles se destacou o astrônomo,  matemático e filósofo italiano Giordano Bruno (1548-1600), ferrenho defensor da  teoria cosmológica de Copérnico, em que terra girava em torno do sol (na  época  heréticas, suas idéias o levaram a condenação pela inquisição e a morte na  fogueira).

Se a ortodoxia, apoiada na metafísica ariatotélica-tomista, colocava Deus  como primeira causa, motor imóvel e perfeição absoluta, um ser transcendente, ou  seja, com existência plena e separada de suas criaturas.  Bruno, concebe Deus  imanente ao Universo e idêntico a Ele.  Deus não é o criador do universo,  mas  seria o próprio universo. Assim temos um universo infinito e ilimitado, como  afirmou Lucrécio (98 a  - 55  ªc) no poema Da Natureza, e a terra não é mais o centro  privilegiado  do  Universo, existindo inumeráveis  mundos  habitados:

“É necessário, porém, que para uma  forma  divina  inacessível haja  um  simulacro  infinito, no  qual, como  membros  infinitos  se  encontrem  mundos inumeráveis... onde deve  existir  inúmeros  indivíduos...  como  podem  existir inúmeros  mundos  iguais  a  este... (BRUNO)

Em 1593 o astrônomo Johannes Kepler redigiu o seu Somnium, o sonho  de uma viagem á Lua, no Somnium ele antecipa diversos fatos hoje conhecidos  como necessários a uma viagem espacial: as características e treinamento que  devem ter os homens destinados a viagem; á disposição dos membros na fase de   partida quando o organismo sofre um choque duríssimo; os problemas derivados   da baixíssima temperatura e da dificuldade de  respirar, do duro impacto com o  solo lunar, da necessidade de evitar os raios solares, e etc.

Já os habitantes da Lua tem dimensões enormes e natureza serpentina, tão comuns na imaginação popular, sua descrição da Lua e de suas crateras é  fantasticamente realista para serem observadas  com os telescópios da época. É um  livro realmente fascinante  que da a idéia da infinidade e da pluralidade dos  mundos, que habitavam as mentes destes primeiros mestres da ficção científica.  

Cirano de Bergerec, um dos primeiros escritores de Ficção Científica, nascido em Paris, em 6 de Março de 1619, formidável espadachim, e  mundialmente conhecido como personagem da peça de Edmond Rostand,  escreveu varias tragédias, mas suas obras primas são, Uma Viagem à Lua, publicada em 1650, e  Uma Viagem ao Sol, publicada em 1662.

Nestes romances as idéias mais interessantes que podemos observar são as descrições feitas com relação ao método de se alcançar a Lua, até então as viagens à Lua tinham sido feitas por meio de jatos de água, por veículos atrelados a bandos de aves e com emprego de anjos ou de demônios para o transporte, Cirano descreve como um dos métodos apropriados o de ligar foguetes à sua nave,  tratando-se realmente de este ser o método pelo qual chegamos a Lua, em 1969.

Para Isaac Asimov, esta foi a mais notável visão individual, da história da Ficção Científica, uma vez que o principio do foguete depende da Terceira Lei do Movimento, que foi enunciada por Newton muitos anos depois da morte de Cirano.

Em 1686, Bernard de  Bouvier  de  Fontenelle,   publicou  seu   “Diálogos  sobre a  pluralidade  dos  Mundos”, onde  ele  popularizou e  difundiu  a  idéia  de que as  estrelas são  outros  sois  cercados de  planetas  habitados,  ele  faz  a  seguinte afirmação  no  prefacio  de  seu  livro:

“Eu  não  estarei  gracejando  se  disser  que  escolhi,  dentre  toda  a  filosofia,  a  matéria  mais  capaz  de  atiçar  a  curiosidade” (FONTENELLE, pág 38 e 39)

Bernard de Bovier de Fontenelle é realmente um grande entusiasta da existência de habitantes em outros mundo, para ele, uma vez que, mesmo em pedras duríssimas existe vida, todos os mundos então poderiam tela:

“... a partir deste exemplo, e mesmo a Lua não passe de um amontoado de rochas, eu prefiro concebê-la roída por seus habitantes a imaginá-la desabitada. Afinal tudo  é vivo, tudo é animado.”  (FONTENELLE, pág 105)

Mas em geral os “alienígenas” de Fontenelle são apenas seres humanos com pequenas variações nos órgãos dos sentidos e na organização social. Ele mesmo deixa claro no livro que tudo o que faz e pegar característica de animais terrestres como abelhas e bichos da seda e transportá-los para outros mundos.

 “Então lhe contei a história natural das abelhas, a respeito das quais ela não conhecia muito mais do que o nome. Assim vedes, prossegui, que simplesmente transporto para outros planetas coisas que se passam em nosso mundo, imaginaríamos extravagâncias  que iriam parecer bizarras e, no entanto, seriam plenamente reais...” (FONTENELLE, pág 110)

A partir e 1700, a idéia da pluralidade dos mundos habitados se popularizou  em conseqüência de fatores como a difusão do copernicanismo, o crescimento das  ciências naturais e a assimilação da física newtoniana. A nova física havia criado  um novo Universo de dimensões infinitas no espaço e no tempo, que será o palco  onde se desenrola o conto Micromégas de Volteire, um dos mais populares  escritores iluministas.

Neste conto Volteire narra a viagem de um habitante da estrela de Sírio ao  planeta Saturno, e depois destes dois a Terra.  No conto ele explora  com  incrível  antecipação para a sua época as diferenças na estrutura corpórea e intelectual que  raças alienígenas podem ter por viverem  em ambientes tão diferentes da Terra, e  chega a propor o uso de naves espaciais semelhante a cometas e da energia solar.

 “O nosso viajente conhecia ás maravilhas das leis da gravitação e todas as forças atrativas e repulsivas. Utilizava-as tão de acordo que, ou por meio de um raio de sol, ou graça à comodidade de um cometa, ia de planeta em planeta, ele e os seus como um passaro voa de galho em galho.” ( VOLTAIRE, pág. 111)

Já no livro O filósofo ignorante, Volteire afirma que: 

 “...Tenho  até  mesmo  motivos   para  crer  que  os  planetas  estão  povoados  de  seres  sensíveis  e  pensantes,  mas  uma  barreira  eterna  nos  separa,  e  nenhum  dos  habitantes  dos  outros  globos  se  comunica  conosco” (VOLTEIRE apud BARCELOS, pág. 18)

Sabemos hoje que a primeira pessoa a ter concebido as estrelas como sendo mundos foi o cardeal alemão Nicolau de Cusa; em 1440, ele publicou algumas noções, que parecem notavelmente modernas, sobre o Universo. Sustentava que o espaço era infinito, e que as estrelas eram outros sóis, e já que, era absurdo que todos aqueles sóis fossem desperdiçados, ele presumiu que cada qual tinha sua família de planetas em volta, e estes eram habitados.

Entretanto foi Immanuel Kant na parte final de sua obra, História natural e  teoria geral do céu,  que além de lançar sua revolucionaria teoria sobre a gênese  do sistema solar, defendendo  que  os  sistemas planetários  teriam  se  formado  a  partir  da  contração gravitacional de uma nuvem de matéria no espaço; teoria esta  ainda aceita com  algumas alterações. Também formula uma hipótese sobre as  inteligências extraterrestres.

Nesta hipótese Kant propõe que a natureza destes seres derivaria de fatores astronômicos, como a distancia do Sol e a composição da matéria, ou em  sua próprias palavras:

“... a qualidade dos seres racionais .. está  submetida  a  certa  regra,  segundo  o  qual  a  maior  qualidade  e  perfeição  situa-as  na  proporção  da  distancia  de  seus  habitantes  ao  Sol.” (KANT apud BARCELOS, pág. 18)

O filósofo escocês David  Hume,  em  seus  Diálogos  Sobre  a  Religião  Natural, publicado  em  1779,  segue  o  mesmo  raciocínio de  Kant,  ele  propõe  que:

“...há  algum  fundamento  razoável  para  concluir  que  s  habitantes  de  outros  planetas  possuem  pensamento,  inteligência,  razão,  ou  algo  similar  a  estas  faculdades  humanas ? Quando  a  natureza  é  tão  diversificada  neste  pequeno  globo;  podemos  imaginar  que  ela  incessantemente  copia  a  si  própria  através  de  um  universo  tão  imenso ?”. (HUME apud BARCELOS, pág. 19)

Outro pluralista famoso foi Sir William Herschel (1738-1822), um astrônomo de primeira linha ele catalogou agrupamentos de estrelas nebulosas, descobriram novos satélites de Saturno e também o planeta Urano.

Mas Herschel era propenso a especular além dos fatos, e estava convencido por um argumento incerto de analogia de que todas as estrelas e planetas têm vida inteligente. Nas palavras de Flammarion: 

“Pareciam mostrar o no astro solar um globo escuro como os planetas, envolvido de duas atmosferas principais, das quais a exterior seria a fonte de luz e do calor, e a interior teria o papel de refletir para fora esta luz e este calor e preservar o globo solar. Este globo solar seria de espécie habitável: era a opinião dos dois Herschel...” (FLAMMARION, 1995, pág 66)

Herschel permaneceu convencido da existência de seus "homens solares" até sua morte em 1822. O filho de William Herschel, John, também se tornou um astrônomo respeitado.  E um dos homnes que mais influenciou Charles Darwin, seu livro, Discurso Preliminar sobre o Estudo da Filosofia, incendiou o jovem Darwin, ele vislumbrou ali o escopo ilimitado da explicação científica e o rápido progresso de cada ramo do conhecimento. 

 “Como Herschel observou em uma passagem que Darwin sublinhou,“O que, então, não podemos prever (...), o que não podemos esperar dod esforços de mentes poderosas”, construindo sobre o “conhecimento adquirido das gerações passadas?” O céu era o limite.” (DESMOND e MOORE, pág 109 e 110) 

Pelo ano 1835 John estava em Feldhausen, África do Sul, onde ele construiu um telescópio para tirar proveito do ar mais claro por lá e ver porções do céu do sul não visíveis a latitudes mais ao norte. Nesse ano o jornal New York Sun publicou, em formato de novela com capítulos, uma suposta reimpressão dos relatos das descobertas de John Herschel na África do Sul.

Os artigos descreveram em detalhes a invenção de um telescópio maravilhoso, do qual uma pessoa poderia observar a superfície da lua como se estivesse de pé sobre ela. À medida que os capítulos se desenvolveram, este observou as crateras da lua, cristais de ametista com 90 pés de altura, rios, vegetação e animais, antílopes, cabras, cegonhas, pelicanos, bisões com tapadeiras de olhos feitas de pele para proteger seus olhos do sol e castores sem cauda. 

E por fim os habitantes da Lua, eram homens e mulheres peludos e alados, lembrando morcegos, e podiam voar. Esta foi uma das mais famosas fraudes de jornal na história. Enganou até mesmo alguns cientistas. John Herschel, ainda na África do Sul, finalmente ouviu falar por carta da fraude, e achou-a divertida, ainda que segundo ele suas descobertas reais não chamassem tanta atenção.

Mas John não era um cético, ele acreditava, como seu pai na pluralidade dos mundos habitados,  em suas próprias palavras:

“Com que objetivo devemos supor que as estrelas tenham sido criadas e que corpos assim magníficos tenham sido dispersos na imensidão do espaço? Isto não foi, sem dúvida,  para iluminar nossas noites, objetivo que poderia ser melhor satisfeito por mais uma lua, que fosse a milésima parte da nossa, nem para brilhar como um espetáculo vazio de sentido e de realidade, e nos iludir em vãs conjecturas. Esses astros são, é verdade, úteis ao homem como pontos de referência, aos quais pode tudo referir com exatidão; mas seria preciso ter tirado bem pouco fruto do estudo da astronomia para poder supor que o homem seja o único objeto dos cuidados de seu criador, e para não ver, no vasto e desconcertante aparato que nos cerca, moradas destinadas a outras raças de seres vivos.” (HERSCHEL apud FLAMMARION, 1995, pág 60).

Após Herschel temos na figura de Nicolas Camille Flammarion, o maior defensor da Pluralidade dos Mundos Habitados, nasceu aos vinte e seis dias de fevereiro de 1842, ainda aos oito anos ganhou um livro de Cosmografia do qual copiou, especialmente os sistemas de Ptolomeu, Copérnico e Tycho-Brahe.    Aos nove anos de idade, Flammarion iniciou seus estudos de latim. Realizou seus estudos clássicos na cidade de Langres, em uma escola católica que foi responsável por seus sólidos conhecimentos em humanidades.

Quando seus pais mudaram para Paris, ele passou a estudar na  Associação Politécnica de Paris em cursos gratuitos, onde aprendeu melhor as matemáticas. Aos domingos Flammarion estudava as disciplinas que despertavam seu interesse, como a frenologia, a fisiognomia e os sistemas de Laváter, Gall e Spurzheim. 

Aos 15 anos Flammarion escreveu um livro de cerca de 500 páginas, que ele próprio ilustrou com 150 desenhos, intitulado "Cosmogonia universal: estudo do mundo primitivo". Este trabalho seria publicado mais tarde com o título: "O mundo antes da aparição do homem."  Com este livro em mãos, o jovem ganhou coragem e apresentou-se no Observatório de Paris, à época dirigido por Le Verrier, o astrônomo que houvera descoberto Netuno sem instrumentos, apenas usando cálculo. Após ser entrevistado e avaliado foi aceito como aluno-astrônomo.

   Entre os tipos de atividades que realizou, Flammarion mediu estrelas duplas e realizou cálculo de suas órbitas, estudou a direção das correntes aéreas, fez estudos higrométricos do ar, analisou a rotação de corpos celestes, confeccionou mapas de Marte e escreveu trabalhos sobre a constituição física da Lua.

Seu primeiro livro publicado foi "Pluralidade dos Mundos Habitados" (1861), seguido-se "Viagem extática às regiões lunares", "Os mundos imaginários e os mundos reais" (1865), "As maravilhas celestes" (obra popular de divulgação da astronomia), "Estudos e leituras sobre astronomia" (1867), "Viagens aéreas" (1867), "Galerie Astronomique" (1867), "Contemplações científicas" (coletânea de escritos publicados nas revistas "Siècle", "Magasin pittoresque" e "Cosmos" - 1870), "A atmosfera" (1871), "Astronomia Popular" (1880), "O mundo antes da criação do homem" (1885), "Os cometas, as estrelas e os planetas" (1886), "Astronomia para amadores" (1904) e "Raio e trovão" (1906).

    Em "Pluralidade dos Mundos Habitados" trata do sistema solar, realiza um estudo comparativo dos planetas, discute a fisiologia dos seres a fim de abordar a questão da habitabilidade, trata de habitantes de outros mundos e da pluralidade dos mundos ante o dogma cristão. 

   São muitas as revistas que receberam suas contribuições. Em Junho de 1863, tornou-se redator científico da revista "Cosmos", contribui nas revistas "Siècle", "Magasin Pittoresque" e funda, em 1882, a revista "L"Astronomie". Esta última revista continua sendo editada até os dias de hoje.

    O Observatório de Juvisy foi fundado por Flammarion em 1883, onde passou a realizar seus trabalhos nas áreas de astronomia, climatologia e meteorologia. Ele é visto pelos astrônomos contemporâneos como um astrônomo amador que realizou um trabalho de divulgação da astronomia. Esta qualificação possivelmente se deve ao fato de ele não fazer parte de nenhuma academia ou centro de pesquisa oficial, mas, certamente, não se pode qualificá-lo de amador por não publicar seus trabalhos regularmente em periódicos científicos.

    Quatro anos depois, ele tornou-se o fundador da Sociedade Astronômica da França (Société Astronomique de France), com o objetivo de "difundir as Ciências do Universo e fazer os amadores participarem do seu progresso", que continua vigente até os dias de hoje. D. Pedro II, imperador do Brasil, foi pessoalmente ao observatório de Juvisy entregar-lhe a comenda da "Ordem da Rosa". Flammarion também fez parte por via literária e pessoalmente, do grupo de Victor Hugo.

    O primeiro contato de Flammarion com a doutrina dos espíritas se deu em uma livraria, onde ele teve acesso a "O Livro dos Espíritos" de Allan Kardec. Ao folhear o livro o astrônomo constatou que ele tratava, entre outros, do assunto do livro que ele estava escrevendo: Pluralidade dos Mundos Habitados. O que mais o intrigava é que a origem das informações esta atribuída a espíritos, o que ele resolveu verificar.

    Procurou Allan Kardec e passou a assistir as reuniões da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, nesta Sociedade ele obteve diversas mensagens assinadas por Galileu, algumas das quais Kardec inseriu em "A Gênese".          Mas ele se mostra cético com relação a estas experiências.

"Eu não demorei a observar que as nossas comunicações mediúnicas refletiam simplesmente nossas idéias pessoais, e que Galileu por mim, e que os habitantes de Júpiter por Sardou, são estranhos a estas produções inconscientes dos nossos espíritos" (FLAMMARION, 1979)

As idéias positivistas, especialmente as referentes ao conceito e papel da ciência no conhecimento, foram adotadas por ele. O empirismo, a construção das teorias a partir da observação dos fatos, o questionamento de qualquer sistema calcado em postulados apriorísticos e o uso da matemática na análise dos fenômenos são uma constante na construção do seu pensamento, em suas pesquisas astronômicas,  e se mostra desconfiado com o movimento espírita, apesar de ser um pesquisador destes fenômenos.

"O comitê me ofereceu suceder a Allan Kardec como presidente da Sociedade Espírita. Eu recusei, dizendo que nove décimos dos seus discípulos continuariam a ver, durante muito tempo ainda, uma religião mais que uma ciência, e que a identidade dos "espíritos" estava longe ainda de ser provada." (FLAMMARION, 1911. p. 498)

Uma afirmação sem duvida valida até os dias de hoje, além das obras citadas referentes a suas pesquisas astronômicas, Flammarion escreveu pelo menos quatro livros que podemos classificar como ficção científica, ainda que carregados de influência espírita, são eles:

1.     "Urânia", escrito em forma de diálogos intercalados por informações e idéias do movimento espírita e da astronomia, que vaga entre os dados da pesquisa e a imaginação.

2.     "O fim do mundo" Trata-se de uma ficção ambientada no vigésimo quinto século sobre o fim do sistema solar.

3.     "Narrações do infinito " O autor o considera como seu sexto livro, e o define como um "romance astronômico" escrito em forma de diálogo entre um vivo e um morto.

4.     "Estela" é narrativa que tem por centro o amor de Rafael e Estela. Traz em seu bojo as informações da Astronomia, o debate com o materialismo e os temas espiritualistas.

Na sua obra mais conhecida “A Pluralidade dos Mundos Habitados”, Flammarion defende a existências de seres extraterrestres nos diversos planetas espalhados no cosmo, mas julga que mesmo que a composição atômica dos mundos sejam iguais, as diferentes formas destas se combinarem dará origem a seres que mal podemos imaginar, nas palavras e Flammarion:

                                                   “I – As forças diversas que estiveram em ação na origem das coisas deram nascimento, nos mundos, a uma grande diversidade  de sesres, seja nos reinos inorgânicos, seja nos reinos orgânicos; 

                                                     II – Os seres animados foram, desde o começo, constituídos segundo formas e organismos em correlação com o estado fisiológico de cada uma das esferas habitadas;

                                                     III – Os homens dos outros mundos diferem de nós, tanto em sua organização íntima quanto em seu tipo físico exterior.”  (FLAMMARION, 1995, pág 231)  

Camille Flammarion faleceu em 04 de junho de 1925, a Pluralidade dos Mundos Habitados como disciplina ao mesmo tempo filosófica, cientifica e religiosa, encerrasse com Flammarion, para tornar-se literatura (ficção cientifica), e mais tarde a moderna astrobiologia. Literatura e ciência, entretanto, não abordaremos estas neste trabalho.

Referências Bibliográfica: 

ASIMOV, ISAAC. O Início e o Fim. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. 

BARCELOS, Eduardo Dorneles. Telegramas para Marte: A busca científica de vida e inteligência extraterrestre..Rio de Janeiro:  Jorge Zahar, 2001.

BARCELOS, Eduardo Dorneles. Vida Extraterrestre. São Paulo:  Editora Abril, 2003. ( Coleção  Para Saber Mais ).

BRUNO, Giordano. Sobre o Infinito, o Universo e os Mundos. Trad. Helda Barraco e Nestor Deola. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

DESMOND, Adrian. MOORE James. DARWIN: A vida de um evolucionista atormentado.  Trad. Cynthia Azevedo. São Paulo: Geração Editorial, 2001.

FONTENELLE, Bernard de Bouvier de. Diálogos sobre A Pluralidade dos Mundos. Trad. Denise Bottmann. Campinas: Editora da Unicamp, 1993.   

FLAMMARION, Camille. A Pluralidade dos Mundos Habitados.Trad. Norberto de Paula Lima. São Paulo: Ícone, 1995.

______. O homem antes da história: ancianidade da raça humana, Revista Espírita, São Paulo, EDICEL, ano X, vol. 12, p. 359-362, dez. 1867. [Traduzido para o português por Júlio Abreu Filho]

______. O Espiritismo e a ciência, Revista Espírita, São Paulo, EDICEL, ano XII, vol. 5, p. 135-139, mai. 1869. [Traduzido para o português por Júlio Abreu Filho]

______ Mémoires biographiques et philosophiques d"un astronome. s.n., 1911.

______ Discurso pronunciado junto ao túmulo de Allan Kardec. in: KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 1978.

______ Urânia. Rio de Janeiro: FEB, 1979.

______ Estela. Rio de Janeiro: FEB, 1994.

______ Narrações do infinito. Rio de Janeiro: FEB, 1993.

______ O fim do mundo. Rio de Janeiro: FEB, 1995.

ROSSI, Paolo. A Ciência e a Filosofia dos Modernos. Trad. Álvaro Lorencini. São Paulo: Editora UNESP, 1992. 

VOLTAIRE. Contos. Trad. Roberto Domenico Proença. São Paulo: Nova Cultural, 2002. 

 

Edgar Indalecio Smaniotto é filósofo e cientista social (mestrando), pela UNESP de Marília.
  edgarfilosofo@uol.com.br

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