X-MEN: o pecado de ser diferente em uma sociedade de massas
Edgar Indalecio Smaniotto

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A humanidade esta em ritmo de sofrer mais um processo de adaptação ao ambiente, devido a seleção natural. Surgem os Mutantes, um novo tipo de homem para além do homo - sapiens. E o professor Xavier é o guia e mentor desta nova raça, que pretende a paz com os não-mutantes, salvo pelo seu arquiinimigo, Magneto. A escola de Xavier foi várias vezes atacada pelas forças do governo dos Estados Unidos. E, podemos notar que os X-men que desejam a paz, são mais perseguidos que Magneto e outros mutantes "terroristas".

Esses são os fios condutores de X-men. Tudo é corriqueiro, mas a mensagem de Stan Lee, sob a simplicidade do comics book, é por demais séria. Tão séria que, em determinando momento do filme X-men II, Xavier e seus comandados, os mutantes, entram todos na sala do Presidente dos Estados Unidos e dizem: "viemos para ficar ". Parecem os democratas, indo e vindo na Casa Branca, com as calças nas mãos, charutos fora de controle e secretárias gordinhas, tinham uma facilidade maior de brincar com o poder, de não torná-lo tão sério e, portanto, tão perigoso quanto os republicanos, em especial George Bush – o homem que realmente, de uma vez, vai dar razão a todo e qualquer Axterix que vier a falar que a Pax Americana é a do cemitério.

Se os bárbaros exteriores às fronteiras mais próximas da nova Roma, NY, podem ser controlados pelas forças militares com a chamada "guerra inteligente", o que fazer com os mutantes, que não estão só vivendo em vários lugares do mundo mas possuem uma escola de treinamento bem no seio do império, bem nos Estados Unidos da América? Bush deverá comandar, cedo ou tarde, para a alegria e razão de Magneto, uma intervenção mais eficaz na escola do professor Xavier, ou ele vai continuar a política, desejada por alguns de seu partido, de registro e cadastro dos mutantes, de modo a sabermos o que fazer com os que possuem uma língua dupla?

O império de Bush pode ter, na ilha cubana, uma prisão para bárbaros. Pode invadir países bárbaros e ensinar a lição que outros, no passado, teimaram em não aprender, ou seja, a de aceitar a modernidade capitalista sob um controle de determinados setores industriais e não de outros. Mas Bush colocaria na cadeia um norte-americano da gema, como o professor Xavier? Ele injetaria veneno, por conta do Estado, em Wolverine, fazendo o guerreiro se calar caso este venha a dizer que talvez Magneto não esteja tão errado, e que é uma questão de tempo o ataque a todos os mutantes, como foi uma questão de tempo o ataque ao Oriente?

Parece que Stan Lee, há trinta anos, quando começou a ver que a realidade do império era a que ele tinha nas mãos, não poderia prever que, ao chegar nas telas, o professor Xavier e sua turma estivessem fora de ser uma ficção, e que fossem a história da vida cotidiana do império. Pois se ele realmente pudesse prever isso, talvez não tivesse continuado. O horror do futuro, que hoje é presente, o teria feito parar quando os bárbaros eram apenas russos, um povo que nunca deveria ter amedrontado ninguém, uma vez que beijavam todo mundo e gostavam mais de vodca do que de Deus.

Richard Rorty um filósofo americano que ousou dizer algo contra a matança nos países bárbaros, deixa claro que os mutantes temem que eles, ou o resto do que era o império nos anos sessenta, tenham sucumbido de uma vez a nova oligarquia militar e petrolífera. Qual mutante, nos tempos atuais, arriscaria de fato sair mostrando sua língua por aí, como o garoto do filme?

Em tempos em que ser americano, ou imitar muito bem os americanos, é participar ativamente da moderna sociedade capitalista, quem quer ser comunista, anarquista, ou fanzineiro independente, lutando contra os grandes? Não estar enquadrado no modelo ocidental é a maior transgressão, vício, má ação que pode-se cometer, um pecado grave sem duvida, que faz a pobre criatura perder o direito ao céu de consumo e individualismo, transviado na palavra democracia.

Todos que tem língua dupla, como o garoto do filme, deveriam exibí-la? Creio que somente as crianças, pela ingenuidade,  poderiam fazer isso. Quem é mutante, quem tem língua dupla, não vai exibí-la por aí. Quem sabe inglês e  turco, não vai  falar

turco, quem sabe inglês e coreano, não vai falar coreano, quem falar espanhol ou português, não corre o risco de ter de limpar o banheiro ou tirar fotos para os arquivos da CIA, FBI e etc.? Ou fazer papel de Mexicano, Jamaicano, Colombiano, Porto - Riquenho, "preguiçosos, traficantes, estupradores, mal educados, e fanáticos por orgias sexuais", no cinema americano. Língua dupla, essa coisa de mutante, não é bom de mostrar em um lugar onde nem mesmo o professor Xavier, parece estar seguro.

Mas se o presidente norte-americano foi avisado pelo próprio professor Xavier, por todos os mutantes do grupo dele, que os mutantes "vieram para ficar", terá ele percebido que isso significa? John Dewey falou mais ou menos a mesma coisa que Stan Lee, nos anos dez, dizendo que todo norte-americano era mutante: era afro-americano, ítalo-americano, hispano-americano etc, nada diferente de nós Brasileiros.

Nós pelo menos transformamos nosso Charles Xavier em presidente, mas poderíamos fazer o mesmo com Mutantes de aparência pouco mais "grotesca", poderíamos eleger o Anjo, o Fera ou Wolverine. Ou em outras palavras, nós sentiríamos bem com um presidente negro, mulher ou até quem sabe índio, ateu ou evangélico.

Hegel e Marx sabiam que os contrastes mais agudos ocorreriam na América. Cabe a Stan Lee recordar isso, parece. Cabe a nós ver se conseguimos manter Wolverine calmo, ele tem uma marca com o passado, de quando o império fez pior do que agora, no Iraque – sabemos disso. Ele é exatamente a síntese do império: mutante e ao mesmo tempo tão demasiadamente humano que parece ter um pé no lamaçal – o lamaçal dos crime de guerra norte-americanos no Vietnã, onde como agora no Iraque, eram os Negros, Latinos, e outros que morriam pelo mesmo poder que os mantinham tão afastados "da almejada democracia", como os próprios Vietnamitas.

Na filosofia política aprendemos à analisar o cotidiano político de nosso planeta azul, nos gibis de Stan Lee, encontramos uma realidade política, demostrada e contada, muitas vezes com maior realidade aos fatos, do que nos jornais, de um certo país que vem tentando se encontrar copiando uma realidade já fracassada.

Mas nossos "Bushs" locais, esperam realmente continuarem a manter os mutantes brasileiros esperando pelo país do futuro, enquanto nosso Magneto e seus mutantes rebeldes parecem ter controlado até as prisões que fizemos para eles, nossos X-men permanecem em suas tendas na beira das estradas, catando nossos restos para viver, preservando nossas florestas que não damos valor, e assim continuamos a perseguí-los por nós lembrar a existencial do outro, culpando-os pelos crimes de Magneto, no fundo gostaríamos de ter um Planeta X, para manda-los embora, afinal mutantes devem ser apenas personagens de revistas e filmes, não nosso vizinho.

 

Referências:

DEWEY, John. Democracia e Educação. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1936.

FRIEDMAN, Michael Jan. Planeta X. São Paulo: Meia Sete Editora, 1998.

RORTY, Richard. Para Realizar a América: o pensamento de esquerda o século XX na América. Trad.

Paulo Ghiraldelli Jr., Alberto Tosi Rodrigues e Leoni Henning. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 1999.

________. Contra os chefes, contra as oligarquias. Trad. João Abreu. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.

 

 

Edgar Indalecio Smaniotto, filósofo, astrônomo amador, mestrando em Ciências Sociais pela Unesp de Marília.
E-mail: edgarsmaniotto@yahoo.com.br
Blogger: http://edgarfilosofo.blog.uol.com.br/

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