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Humor na FC    
 

Cesar Silva

A Ficção Científica não é muito famosa por suas doses de humor. Muito ao contrário, é um gênero mais alinhado com a futurologia pessimista, o que normalmente não dá muita margem ao riso. Também se costuma enxergar a classe científica como extremamente estóica, e a ficção que adota esse ambiente acaba contaminada também por esse conceito.

De fato, a maioria da FC não se esforça nada por ser bem humorada. Ou se dedica a fazer enfadonhos discursos paracientíficos, alertar histericamente para um destino trágico da humanidade, ou ser piegas ao elevar jovens imberbes à situação de salvadores do universo. é claro que como todos os demais gêneros, essas não são situações únicas. Alguns autores conseguem romper essa previsibilidade e desenvolver trabalhos surpreendentes, que se destacam da mediocridade geral e colocam-se num patamar mais elevado. Obras de teor filosófico, psicológico, épico, perturbador, emocionante, maravilhoso... e porque não, engraçado.

Na literatura, a FC humorística é rara, mas seus poucos exemplos são trabalhos de qualidade. O autor recente que mais explorou o filão foi Douglas Adams em sua série de histórias inicidas em O Mochileiro da Galáxia, publicada no Brasil na década de 80 e hoje muito difícil de encontrar. Adams criou um universo absolutamente caótico, onde tudo pode acontecer, e usa isso em favor do humor.

Mas essa verve cômica não é fruto recente na FC. O escritor britânico Sir Arthur Conan Doyle, mais conhecido por ter criado o detetive Sherlock Holmes, é provavelmente o exemplo pioneiro. Em seu livro O Mundo Perdido, publicado em 1912, insere um humor requintado na relação entre os personagens ao longo de sua perigosa jornada pela Amazônia a procura de um lendário platô onde ainda viveriam dinossauros. Toda a carga cômica é apoiada no personagem principal, o excêntrico Professor Challenger, que tem modos muito característicos de se relacionar com seus parceiros de viagem. Desse modo, Doyle aproveita para rir dos ridículos da sociedade científica de sua época.

Fredric Brown já ridicularizava a paranóia americana por invasões em plena Golden Age da FC (anos 40 e 50), em seu romance Os Marcianos Divertem-se, contando a confusa invasão da Terra por marcianos cínicos e absolutamente insuportáveis. Como era uma invasão virtual, e os marcianos surgiam como imagens holográficas, os humanos não tinham como reagir ao falatório ininterrupto e a descarga de ofensas que eles adoravam proferir. E muitas vezes sua aparição incômoda acontecia em lugares e momentos nada próprios, colocando todos humanos em estado de completo desespero.

Outro autor de destaque no gênero, Jack Vance, encreveu um romance cujo título já ri de si mesmo: Ópera Interplanetária. Tudo faz crer que trata-se de uma space-opera, um tipo de FC que costumeiramente utiliza ambientes espaciais para contar histórias de heroísmo militar, como no filme Guerra nas Estrelas, por exemplo. Mas não é nada disso. Vance conta mesmo a história de um grupo de ópera, com coral e sinfônica completos, que decide viajar pelo universo para levar a mais refinada arte terrestre aos seres de outros mundos. Mas acontece que os alienígenas não pensam como nós e as apresentações da tal ópera nunca tinham o resultado esperado.

Outro trabalho festejado entre os fãs, na minha opinião o melhor momento do humor na FC, é o romance de Harry Harrison Bill, O Herói Galáctico. Harrison monta um ambiente típico da space opera para depois demolir todos os seus elementos. Bill é um jovem sem nenhum futuro, numa colônia periférica do império galáctico, que é enganado pelo discurso de um militar cuja função é recrutar novos soldados. é claro que tudo o que o fulano diz é mentira mas, depois de alistado, não tem jeito: Bill é embarcado numa nave e, a partir daí, nada mais dá certo para o pobre coitado. Só para exemplificar, logo de saída Bill perde o braço esquerdo num ataque a nave e tem implantado no lugar dele o braço direito de um de seus falecidos colegas, um negro rebelde e falador. Além de ficar com dois braços direitos, tem de enfrentar a rebeldia do braço implantado, que nem sempre concorda com as ordens que recebe. Isso é só um aperitivo da confusão que se torna a vida de Bill, sempre envolvido em situações de perigo por conta da burocracia imperial, da idiotice de seus companheiros ou de sua própria estupidez.

Mais sutil é o humor do excelente Damon Knight em O Outro Pé. Damon é um autor da geração New Wave da FC (anos 60 e 70). Essa história, um dos poucos trabalhos do autor publicados em português, conta da situação inusitada de um homem que, por algum capricho da natureza, tem sua consciência trocada com a de um alienígena. Preso num corpo estranho, o homem vai tentar reverter a situação, mas ter·de enfrentar a pressão dos instintos de seu corpo novo, que vão dominando-o pouco a pouco, enquanto o mesmo ocorre com seu antigo corpo, agora com a mente do alienígena. E a sutileza máxima de um humor às vezes negro, outras apenas ácido, pode ser encontrada permeando toda a obra de Kurt Vonnengut Jr., um autor de FC que rejeita esse rótulo. Vonnengut é um dos poucos autores de FC que é bem aceito no ambiente mainstream (a literatura não-FC), justamente porque sua ficção costuma ser muito diferente do usual no gênero. Seu romance mais conhecido, que inclusive chegou aos cinemas, é Matadouro 5, uma história meio autobiográfica, que conta o horror do bombardeio a bucólica cidade de Dresden pelos aliados durante a II Guerra Mundial, misturada aos delírios do personagem que acredita ter sido abduzido por alienígenas e viver uma existência paralela num zoológico alienígena, acompanhado por uma famosa e bela atriz de cinema.

Outro autor que gostava de uma boa piada em seus textos era Isaac Asimov. Autor de centenas de livros de ficção e divulgação científica, mestre no jeito de apresentar conceitos científicos de forma agradável e facilmente inteligível por leigos e um dos pioneiros do gênero nos EUA, Asimov é o autor de FC preferido no Brasil. Seu ego era tão grande que ele mesmo fazia piada disso, colocando em muitos de seus contos um alter-ego para ser ridicularizado pelos outros personagens. Esse humor inteligente e bem comportado está presente em todos os seus textos. Não é preciso destacar nenhum em especial, pois Asimov foi um escritor tão regular que qualquer deles apresenta essa característica.

O humor da FC que chegou às outras mídias nem sempre foi de igual qualidade, mas alguns deles valem a pena ser lembrados. No cinema há bons filmes que abordam o gênero através da s·tira mais simples, como Apertem os cintos, o piloto sumiu 2, que satiriza os filmes de catástrofe no espaço, e Spaceballs, tem um louco no espaço, de Mel Brooks, que tira um sarro dos filmes modernos de FC. Mas também temos a sutileza mordaz de Brazil, de Terry Gillian, que nos apresenta a visão de um futuro absurdo no qual a burocracia tornou a vida uma impossibilidade pr·tica, e Dr. Fantástico, de Stanley Kubrick, com a excelente multi-interpretação de Peter Sellers, que jogou a primeira pá-de-cal sobre a guerra fria e a paranóia nuclear. Uma FC por excelência, que usa o humor em seu favor sem apelar para o humor negro ou a crítica ácida, é a série De volta para o futuro, de Robert Zemmekis. Foram ao todo três filmes, sendo que o primeiro é um primor de roteiro, direção, cenografia e interpretação, narrando a história de um adolescente, cujo pai é um nerd perdedor típico, que acaba envolvido num experimento revolucionário de um cientísta maluco, que o joga trinta anos no passado. Preso num paradoxo temporal, um dos mais interessantes temas da FC, ele vai aos poucos desaparecendo, pois sua presença no passado desencadeia fatos que não deveriam acontecer e acabam prejudicando a aproximação entre seus pais, alterando seu futuro. Um dos melhores filmes de FC de todos os tempos. Outro filme no mesmo tema, que vale a pena ser lembrado, é O feitiço do tempo, uma fantasia urbana que, por envolver uma curiosa teoria sobre o tempo, pode ser classificado como FC. Nele um insuportável apresentador de televisão, interpretado por Bill Murray, ao fazer a cobertura anual do Dia da Marmota, fica preso indefinidamente nesse dia. Por mais que se esforce, sempre acaba acordando no mesmo dia e passando pelas mesmas coisas novamente. Apenas ele sabe que tudo se repete e, desse modo, vai sendo confrontado pouco a pouco com a sua própria incapacidade como ser humano.

Na televisão nem sempre o humor chegou a tanto refinamento. Tal não é muito próprio da mídia mais popular de todas e, por isso, o que mais se vê nos shows é o humor grosseiro. Parafraseando uma máxima empresarial: o humor refinado ri-se das idéias; o humor comum ri das coisas, e o humor grosseiro ri das pessoas. Com esta régua, o leitor pode montar sua própria escala de qualidade naquilo que vê por aí.

Mas vale destacar alguns seriados que conseguiram apresentar algo mais em matéria de humor na FC. O exemplo mais conhecido, e que dispensa maiores comentários, é o seriado Perdidos no Espaço, sempre com a presença hilária do desprezível Dr. Smith e sua escada preferida, o Robô "lata-de-sardinha", como ele carinhosamente o chamava. Um seriado clássico é Meu marciano favorito, uma sitcon (comédia de costumes) que usa a presença de um alienígena humanóide entre a sociedade classe média americana, e desse modo faz graça com o comportamento dela. Outro seriado com exatamente o mesmo perfil e objetivos, só que mais recente, é Alf, o ETeimoso, porém neste caso o alienígena não é humano, mas sim um bicho peludo comedor de gatos, último sobrevivente de um planeta que foi destruído pela prôpria estupidez de seus habitantes. O seriado teve também uma excelente versão em desenho animado, contando como Alf vivia em seu planeta natal. O humor usual desse tipo de séries é conseguido com a confrontação dos absurdos da sociedade americana média com os valores dos alienígenas, às vezes ainda mais absurdos.

Inéditos na TV aberta brasileira (mas possivelmente disponíveis em canais a cabo e por satélite) são o seriado inglês Red Dwarf e a sitcon americana 3rd rock from the Sun. O primeiro conta a história do ultimo sobrevivente da Terra, viajando pelo que restou da galáxia numa nave enorme, acompanhado de mutantes e alienígenas muito suspeitos. Seu humor advém principalmente da sátira e do pastiche de outros seriados e filmes de FC. O segundo é a mais recente versão do mesmo conceito desenvolvido em Meu marciano favorito, só que com a presença ilustre e premiada com o Golden Globe de John Lithgow.

Nos quadrinhos o humor poucas vezes caminhou ao lado da FC. O exemplo mais clássico dessa rara união está em Brucutu (Alley Oop) de Vincente T. Hamlim. O bronco troglodita vivia entre os dinossauros e viajava pelo tempo através de uma máquina inventada por um cientista maluco do século XX, o professor Papanatas. Mais recente é a série franco-belga Valerian, o agente espaço-temporal, da dupla Crispin e Mezieres, que usam de bom humor em doses equilibradas mesclado com muita ação para contar as aventuras de um agente encarregado de impedir que disfunções espaço-temporais, naturais ou não, prejudiquem o continuum espaço-tempo num futuro distante. São histórias criativas e de alta qualidade artística, uma característica do quadrinho europeu. E numa espécie de borderline do gênero está um dos maiores sucessos dos quadrinhos em tiras modernos: Calvin e Haroldo. A série tem legiões de fãs em todo o mundo, inclusive no Brasil. Seu autor, Bill Watterson, muitas vezes coloca o garotinho traquinas e seu tigre de pelúcia em situações típicas da FC, como viagens no tempo, por exemplo. São invariavelmente tiradas excelentes e de um humor finíssimo.

Também com contatos eventuais com a FC, merece ser registrada a criativa série dos irmão Hernandez, com uma turma de garotas muito divertidas que se envolviam em todo tipo de aventuras. Mais conhecida como Love & Rockets, ou Locas, a série não se preocupava muito com a verossimilhança das situações,apenas situava as garotas num ambiente exótico, às vezes futurista, outras em meio aos dinossauros, e desse modo discutia temas ligados ao universo e o imaginário feminino.

Pouco mais há que se lembrar. O que determina que fazer humor na FC não é apenas um caminho difícil, como sempre é fazer humor de qualidade, mas uma boa oportunidade de desenvolver um modo novo e diferenciado de fazer FC. Quem sabe não esteja justamente aí um caminho favorável para uma bem sucedida FC brasileira.

 

 

 

Cesar Silva

http://www.ceritocity.cjb.net

• Designer e publicitário, desenvolveu trabalhos para centenas de empresas ao longo de 25 anos de carreira


• Como autor de histórias em quadrinhos, teve trabalhos publicados em diversos jornais, revistas e fanzines brasileiros e estrangeiros, como roteirista e ilustrador.


• Como hobbie, desenvolve modelos de papel em escala para montar, principalmente nos temas "Veículos de Ficção Científica" e Aviões de combate". Também faz figuras em massa epóxy e argila com temas fantásticos.


• Gravador amador, dedicado a desenvolver gravuras em metal com temas fantásticos.


• Editor, desde 1983, do fanzine de ficção científica Hiperespaço, premiado com o NOVA em 1988, do qual já publicou mais de meia centena de edições, apresentando centenas de contos, historias em quadrinhos, artigos e críticas, com trabalhos de artistas profissionais e amadores, como Mozart Couto, Watson Portela, Rodval Matias, Julio Shimamoto, Deodato Filho, Luiz Gustavo, Rubens Lucchetti, Braulio Tavares, Gian Danton, e muitos outros.


• Através da SBAF - Sociedade Brasileira de Arte Fantástica - organizou os eventos: HiperCon - Convenção de Ficção Científica de Santo André (1992), RhodanCon - Convenção Multimídia de Ficção Científica (1994), 2ª e 3ª BrasilCon - Convenção Brasileira de Ficção Científica (1995 e 1998) e as 1ª, 2ª, 3ª e 4ª HorrorCon - Convenção Multimídia de Horror (1995, 1996, 1997 e 1998).


• Editor de redação das revistas HorrorShow e Invasões (Editora Escala) e articulista convidado das revistas ShowMix (Editora Escala), MovieStar (MG Press) e Sci Fi News (67 Editora).


• Exercita-se em prosa, realizando textos de ficção, crônicas e ensaios para livros, revistas e fanzines de ficção científica e quadrinhos. Teve sua estréia profissional na antologia Dinossauria Tropicália (GRD, 1994), participou da antologia Outras Copas Outros Mundos (Ano-Luz, 1998).


• Como cartunista, participou das coletâneas de cartuns HumorBrasil 500 Anos (2000 - Prêmio HQ Mix) e 2001, Uma odisséia no humor (2001) da Editora Virgo .

 

 

 

 

 

 

 

 
 
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