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Scarium Ficção Fantástica
Crise nas infinitas editoras de super-heróis    
 

 Cesar Silva

 O fim ou um novo início?

Há poucos dias a maior editora do país, a Editora Abril, abalou o ambiente dos fãs de quadrinhos ao anunciar o cancelamento de todas as publicações de sua linha de super-heróis, pois o mercado para esse tipo de gibi não suporta mais edições nas tiragens com as quais a editora pretende trabalhar.

Depois de mais de uma década investindo nos formatos luxuosos, no início de 2002 a Editora Abril havia decidido mudar radicalmente sua estratégia editorial e retomar o espaço perdido para os mangás (quadrinhos de origem japonesa). Além de uma forte campanha promocional, a Abril voltou a publicar sua linha em formato pequeno e econômico. A mudança não agradou ao grupo reduzido de leitores adultos que prestigiava o formato luxuoso e vociferou diuturnamente seu desagrado; agora transparece a idéia de que esse destino ingrato foi decorrência da volta indesejada do formatinho a um gênero tido como para adultos. Mas não é tão simples assim.

A Abril chegou a vender 250 mil exemplares por edição da revista em formatinho Heróis da TV nos anos 1980, quando a garotada podia comprar não apenas esse, mas todos os títulos mensais de super-heróis da Abril com metade da mesada. Desde então a editora vinha acompanhando o envelhecimento dos leitores sofisticando a apresentação gráfica de suas revistas, do formatinho para as mini-séries, para as grafic-novels, para as Premiuns e para as Platinuns. Desse modo, o gênero dos super-heróis acabou por se afastar do mercado infanto-juvenil que era o grosso dos consumidores. Desguarnecido, o nicho infanto-juvenil foi tomado pelos mangás, que nele se instalaram com revistas baratas de grande apelo comercial, apoio marqueteiro e, ainda por cima, boas.

Na minha opinião, a Abril estava correta em tentar reconquistar o público jovem. Super-herói é coisa para garotada e o custo das edições de luxo afugentava essa melhor fatia de consumo. O equívoco não foi a decisão de retomar o formatinho, mas ter abandonado o leitor jovem no inicio dos anos 1990, o que não renovou o público consumidor, descapitalizou todo o processo editorial e inviabilizou sua sustentação. É bom que se diga que essa opção não foi somente da editora brasileira, mas uma estratégia das editoras americanas proprietárias desses personagens, que também tiveram o mesmo efeito de esvaziamento em seu próprio mercado. 

Precisou alguma coragem dos editores brasileiros para reconhecer que o leitor ideal para as revistas de heróis não é a homarada peluda que passou dos trinta faz tempo. Mas também faltou-lhes profissionalismo. Depois de esnobar a garotada por mais de dez anos, o conserto do estrago certamente demoraria mais do que os parcos quatro meses de formatinho que experimentaram até decidirem pelo cancelamento radical.

Não que todos estejam lamentando, ao contrário, a grande maioria dos leitores e autores festeja a decadência desse tipo de quadrinho no mercado nacional, de olho nos espaços que podem surgir para os demais. 

 

Colecionismo e purismo

Ainda existe o caso dos colecionadores fanáticos, a maioria daqueles que continuam comprando gibis de super-heróis depois de passada a idade das maravilhas. O colecionismo é um vírus insidioso e difícil de curar. Mesmo pessoas muito maduras têm dificuldade de se desvencilhar dele, se é que um dia quiseram. Há quem compre todos os gibis que são publicados mas não lê nenhum, porque sabe que são bobagens e não quer perder tempo, entretanto não aceita ficar com a coleção falhada.

Outra reclamação comum dos leitores adultos de super-heróis é que a redução dos quadrinhos prejudicaria a arte original dos desenhistas. Não vejo como um desenho possa ser deturpado por uma redução proporcional tão ligeira. Até porque os retoques e maquiagens que são feitos para adaptar os balões ao texto em português acontecem tanto no formatinho como no formatão. E vejo ainda menos interferência na qualidade da história. 

É engraçado. 

No Brasil, o formatinho é para a garotada e o formato grande é para os "adultos". No Japão é exatamente o inverso. A edição comercial é grandona, semanal, muito barata e descartável; o povo compra para ler na viagem de metrô e joga no lixo assim que desembarca, como se fosse um jornal velho. Depois que o personagem ganha prestígio, saem compilações em formatinho para serem colecionadas. Todos os mangás que estão saindo no Brasil são versões 'fac-simile' dessas edições colecionáveis, só com uma mudança: cada exemplar original é aqui dividido em duas edições. E acreditem, a reprodução no formatinho é muito melhor que no formatão.

 

Ser ou não ser álbum

O que realmente pode ofender os leitores mais velhos é que o quadrinho de super-heróis realmente não merece mais do que o formatinho na maioria dos casos. 

Apenas o formato não faz o álbum. 

Um álbum exige toda uma liturgia, que passa pela boa procedência, criatividade, capricho técnico, qualidade narrativa, ousadia plástica e competência artística, coisas que os quadrinhos de super-heróis não têm mais há décadas, estragados pela insistência equivocada em torná-los "para adultos". Publicar super-heróis em forma de álbum não é só uma piada de mau-gosto, é uma afronta ao bom quadrinho europeu que deu dignidade a esse formato. Até porque o que vale é o que está impresso. Se for bom, é bom mesmo em formatinho. Se for ruim, o tamanho maior não vai salvá-lo do desastre. 

Por exemplo, Ken Parker (série de faroeste produzida na Itália pelo Estúdio Bonelli) é simplesmente o melhor quadrinho do mundo. O melhor roteirista (Giancarlo Berardi) com o melhor ilustrador (Ivo Milazzo). Sua edição no Brasil, pela editora Mythos, não é colorida, não tem papel especial, nem capa dura plastificada e, ainda por cima, é formatinho. Mesmo assim é uma obra-prima, e para isso ela só precisou ser bem feita. Merecia formato grande? Pode ser, mas o que é bom tem que ser lido pela maior quantidade de pessoas quanto for possível, e Ken Parker só pode isso com o formatinho. Colocá-lo no formato grande é elitizar o que não deve ser elitizado.

 

Soup-opera ou folhetim ?

Tem mais outro problema: os quadrinhos americanos de super-heróis seguem o modelo das soup-operas, as novelas americanas que não têm fim. Isso funciona durante algum tempo, depois começa a ficar repetitivo, "criar barriga" como se diz no jargão da TV. Está claro que as editoras dos super-heróis não pretendem encerrar o expediente dos seus personagens. Elas vão forçá-los a viver suas histórias vazias e inconseqüentes indefinidamente porque os personagens são propriedade das editoras, não dos autores.

No Japão todas as sagas têm fim, por mais bem sucedidas que sejam. Lá os personagens são propriedade de seus autores. Se depois do final de uma série o autor achar que ainda tem algo a dizer com aqueles mesmos personagens, faz outra história, as vezes uma seqüência da anterior, outras vezes uma história alternativa. Mas, na maioria das vezes, resolve fazer uma história nova com personagens novos. Este modelo segue a tradição do folhetim europeu (como em Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas por exemplo), que influenciou as novelas do rádio e da TV no Brasil. 

Mesmo quando uma novela brasileira tem personagens ricos, não se fica esticando a história para sempre. Ela acaba, entra outra no lugar e aqueles personagens ficam na memória, por melhores que fossem. Ainda assim, mesmo com um formato comprovado e aprovado, a Globo está investindo numa soup-opera, a novela Malhação, que está no ar há uns quatro anos e não disfarça a saturação. O modelo da soup-opera é ruim não só para novelas, mas para qualquer outro tipo de narrativa. Isso pesa consideravelmente no caso dos super-heróis com mais de 30 anos.

 

E o super-herói brasileiro?

De acordo com o escritor brasileiro Ariano Suassuna, autor de Morte e Vida Severina, a definição de Brasil está no conflito entre a cidade e o campo, o mundo oficial e o mundo real. Com isso ele demonstra que o Brasil "real" está confinado na cultura popular por um Brasil "oficial" historicamente imposto por culturas estrangeiras. Por analogia, podemos determinar que o estilo "acadêmico-histérico-festivo" dos super-heróis americanos seja uma arte "oficial". Desse modo, um super-herói brasileiro, por si, já é uma oficialização. 

Então há, oculto na cultura popular, um estilo "brasileiro real" para os quadrinhos. Onde estaria ele? Não sei. Mas desconfio que deve ter algumas pistas no Cordel. 

Que também costuma ser publicado em formatinho.

 

 

Cesar Silva

http://www.ceritocity.cjb.net

• Designer e publicitário, desenvolveu trabalhos para centenas de empresas ao longo de 25 anos de carreira


• Como autor de histórias em quadrinhos, teve trabalhos publicados em diversos jornais, revistas e fanzines brasileiros e estrangeiros, como roteirista e ilustrador.


• Como hobbie, desenvolve modelos de papel em escala para montar, principalmente nos temas "Veículos de Ficção Científica" e Aviões de combate". Também faz figuras em massa epóxy e argila com temas fantásticos.


• Gravador amador, dedicado a desenvolver gravuras em metal com temas fantásticos.


• Editor, desde 1983, do fanzine de ficção científica Hiperespaço, premiado com o NOVA em 1988, do qual já publicou mais de meia centena de edições, apresentando centenas de contos, historias em quadrinhos, artigos e críticas, com trabalhos de artistas profissionais e amadores, como Mozart Couto, Watson Portela, Rodval Matias, Julio Shimamoto, Deodato Filho, Luiz Gustavo, Rubens Lucchetti, Braulio Tavares, Gian Danton, e muitos outros.


• Através da SBAF - Sociedade Brasileira de Arte Fantástica - organizou os eventos: HiperCon - Convenção de Ficção Científica de Santo André (1992), RhodanCon - Convenção Multimídia de Ficção Científica (1994), 2ª e 3ª BrasilCon - Convenção Brasileira de Ficção Científica (1995 e 1998) e as 1ª, 2ª, 3ª e 4ª HorrorCon - Convenção Multimídia de Horror (1995, 1996, 1997 e 1998).


• Editor de redação das revistas HorrorShow e Invasões (Editora Escala) e articulista convidado das revistas ShowMix (Editora Escala), MovieStar (MG Press) e Sci Fi News (67 Editora).


• Exercita-se em prosa, realizando textos de ficção, crônicas e ensaios para livros, revistas e fanzines de ficção científica e quadrinhos. Teve sua estréia profissional na antologia Dinossauria Tropicália (GRD, 1994), participou da antologia Outras Copas Outros Mundos (Ano-Luz, 1998).


• Como cartunista, participou das coletâneas de cartuns HumorBrasil 500 Anos (2000 - Prêmio HQ Mix) e 2001, Uma odisséia no humor (2001) da Editora Virgo .

 

 

 

 

 

 

 

 
 
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