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O Primeiro Planeta dos Macacos

Miguel Carqueija

>> Artigos Fantásticos

Memória: O autor revive um dos clássicos da ficção científica: O Macaco e a Essência de Aldous Huxley.
"É provável que as metáforas do Huxley tenham inspirado Pierre Boule quando escreveu seu livro sobre a civilização dos macacos".

- 19/07/2008

Editora Civilização Brasileira, Rio de janeiro, 5ª edição, 1975. Tradução, prefácio, notas e apêndice de João Guilherme Linke. Capa: Eugênio Hirsh. Título do original inglês: “Ape and essence”. c. 1949 Laura Huxley. Biblioteca do Leitor Moderno no. 103.

“Ape and essence” não é um romance de leitura propriamente fácil. Com metáforas violentas e escrito, em sua maior parte, na forma de um roteiro de cinema, foge muito á prosa usual. Merece, porém, lugar de destaque entre as distopias. Seu autor, mestre da literatura inglesa, já havia causado sensação, anos atrás, com “Admirável mundo novo”, um livro cáustico desde o irônico título. Huxley, como Orwell e Zamiatyn, procura alertar a humanidade para os seus descaminhos. Sua ficção é pessimista, mas ressalva a força do amor que luta para sobreviver mesmo em meio a circunstâncias extremamente adversas.

A história se passa no início do século XXII. Mais de cem anos atrás o mundo mergulhou nos horrores da Terceira Guerra Mundial, que não durou quatro nem seis anos, mas somente três dias. Armas atômicas e bacteriológicas determinaram essa rapidez e a ausência de vencedores. Neste cenário apocalíptico uma expedição organizada pela Nova Zelândia – que por ser uma nação insular e bastante isolada, escapou ao pior – singra o oceano e desembarca na costa oeste dos Estados Unidos, para redescobrir a América. Um dos integrantes, o botânico Alfred Poole, acaba sendo seqüestrado pelos nativos, que se tornaram degenerados sob vários aspectos: castigados pelas mutações deformantes, conceberam uma espécie de sociedade totalitária onde se adora o Demônio (ou Belial), reconhecido como vencedor, onde o sexo foi proibido exceto durante alguns dias uma vez por ano (quando então as pessoas, com exceção dos sacerdotes satanistas, se entregam a toda sorte de orgias), onde os bebês mutantes são impiedosamente sacrificados, e as mulheres obrigadas a trajar uniformes com a palavra “não” (no) exibida no peito, na vagina e nas nádegas.

É significativa a constante alusão ao demônio no texto de Huxley. Poole é um protestante liberal e isto significa que não crê no diabo; porém após conviver com uma sociedade satanista e seus ritos e costumes ominosos, acaba mudando de idéia e admitindo a presença maligna no mundo. Mesmo assim não vê vantagem em submeter-se a ela: “Mas se nós sentimos e pensamos e fazemos o que é direito, Ele não nos pode fazer mal.” E diante da perplexidade da jovem Loola, condicionada na adoração de Satã, Poole explica tranqüilizadoramente:

“E lembre-se, Ele não pode jamais vencer para sempre.

- Por que não?

- Porque Ele nunca pode resistir à tentação de levar o mal até ao limite. E toda vez que o mal é levado até ao limite, ele destroi-se a si mesmo. Após o que, a Ordem das Coisas retorna à superfície.”

Estas linhas configuram o aspecto espiritual, nem sempre ressalvado, presente na mensagem da distopia huxleyana. Uma distopia repleta de metáforas ferozes e marcantes, como a dos macacos belicistas e dos Einsteins acorrentados, a Ciência servindo como escrava á Guerra.

Aliás essa metáfora dos macacos da guerra pode até haver inspirado Pierre Boule a escrever o seu romance – mais tarde, filme de sucesso na produção de Arthur P. Jacobs – “O planeta dos macacos”. Vejam estes versos:

“Por certo é óbvio.
Que menino de escola o desconhece?
Os macacos escolhem os fins; só os meios são do homem.”

Significado: os homens (no caso, cientistas) fazem as suas descobertas, que os macacos (donos do poder) utilizam para fins bélicos. Daí os Einsteins acorrentados, escravizados por ferozes babuínos...

Aldous Huxley nasceu em 1894, escreveu este romance em 1948 e faleceu em 1963. O Homem não melhorou desde então. A mensagem pungente e vibrante de “Ape and essence” ainda não perdeu – para nossa desgraça – a sua terrível atualidade.


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